NÃO ESCREVO, MAS PENSO EM VOCÊ
DAVELEDAVE.RECANTODASLETRAS.COM.BR
Não faz sentido eu escrever sobre alguém quando não espero nenhum tipo de retribuição, a não ser justamente esta: ser lido.
Mesmo assim, percebo reverberações do que escrevo — ingenuamente talvez, coincidentemente ou não. E isso já é mais do que qualquer retribuição que eu poderia esperar além de ser lido.
Se, segundo a teoria da comunicação, para que ela se efetive basta um emissor e um receptor, não sendo necessária uma resposta, então ser lido já é, por si só, comunicação e conversão.
Vimos o poder disso no belíssimo filme Fale com Ela, de Almodóvar.
Isso confirma também que há tanta poesia no emissor quanto no receptor da poesia, como dizia Leminski. Ora, se alguém é capaz de perceber a beleza da linguagem, de um texto, de uma poesia, essa pessoa é poeta também.
Quem gosta do que escrevo é como se escrevesse comigo. Ainda que não concorde com tudo. Ainda bem. Dois Davids seriam um problema incomensurável — e o mundo claramente não está preparado para isso.
Acontece, no entanto, de o efeito do que produzo ser o oposto do desejado.
Quando sou bloqueado, por exemplo, mesmo passando um pente fino, nada justifica esse comportamento.
De certa forma, isso diz mais sobre o outro do que sobre mim. Talvez uma dificuldade em lidar com o contrário, com a dissonância.
Quando não sabemos lidar com alguém e queremos eliminá-lo do campo de visão, o bloqueio dá uma falsa sensação de autonomia e poder — como se, com esse gesto, fosse possível impedir o outro de continuar existindo.
Cabe perguntar: que tipo de tolerância exerce alguém que precisa eliminar o outro, ainda que simbolicamente?
Se aplicássemos essa expulsão do diferente à esfera social — ao estrangeiro, ao dissidente — como ficaria o mundo?
Não é muito diferente do que fazem alguns governos autoritários mundo afora. E, curiosamente, mesmo sem sabermos lidar com o diferente no cotidiano, exigimos tolerância das instituições. Isso me soa contraditório.
Continuo acreditando na pluralidade de ideias, nas diferenças, em demonstrar qualquer suposta superioridade não pela exclusão, mas pela criação, pela singularidade, pela produção de realidade, pela atividade.
O bloqueio, nesse sentido, é sempre um movimento reativo — contrário à afirmação da vida.
Em 2026, quero exercer cada vez mais a tolerância e a admissão da impossibilidade de julgar o outro antes de julgar a mim mesmo — e o mundo ideal que imagino.