A VOCAÇÃO PRIMORDIAL DOS SERES HUMANOS
DAVELEDAVE.RECANTODASLETRAS.COM.BR
A vocação primordial dos seres humanos é contar histórias. Desde sempre. E hoje, diante dos números da indústria do entretenimento, é impossível ignorar que os produtos culturais mais consumidos do mundo são os videogames.
Jogos como GTA ou Fortnite movimentam cifras impensáveis, e a premiação dos melhores jogos do ano já supera, em audiência, o Oscar. Diante disso, não é mais possível deixar os videogames de fora quando se fala em boas narrativas.
Qualquer curso de audiovisual que se preze deveria incluir, em sua grade, a escrita de roteiros para videogames. Não como curiosidade, mas como linguagem própria.
Quando vejo histórias contadas em jogos independentes como The Stanley Parable, percebo a narrativa sendo levada a outro patamar — usando a própria indústria como metalinguagem, algo que só o videogame é capaz de fazer.
Constato, inclusive, que nos últimos anos os videogames vêm contando histórias mais originais do que boa parte da sétima arte — e, arrisco dizer, mais inventivas do que a própria Disney.
Aliás, quando se uniu o RPG mais famoso de todos os tempos à maior contadora de histórias do mundo, surgiu algo como Kingdom Hearts 2: uma obra ao mesmo tempo mágica e melancólica, capaz até de flertar com a ideia de matar o Pateta.

Esse jogo, por si só, desmonta o argumento de que videogames não podem ser para todos os públicos. Inclusive para meninas.
Desde 2016, com Pokémon GO, o videogame furou definitivamente a bolha dos consoles e dos jogadores tradicionais. Arrisco dizer que muitos dos jogos mais jogados hoje são destinados a não jogadores.
Jogos como Candy Crush — que minha mãe joga, como tantas outras mães — mostram que quase toda pessoa hoje tem ao menos um jogo instalado no celular.
A indústria se expandiu. Mas ainda pode fazer mais.
Basta encontrar novas formas de contar histórias com videogames — como fizeram Firewatch, Erika, Life Is Strange e What Remains of Edith Finch.
São histórias silenciosas, íntimas, humanas. Histórias que poderiam ser chamadas de imortais, porque resgatam exatamente aquilo que nos define: nossa vocação primordial de narrar o mundo e a nós mesmos.
Talvez, se mais jogos assim forem produzidos, os videogames deixem de ser apenas entretenimento e passem, finalmente, a ser reconhecidos como aquilo que já são: a oitava arte.