DAVELEDAVE.RECANTODASLETRAS.COM.BR
Acho mui “humilde” aquela gente que abre a boca, do alto da própria humildade, para dizer que nem Jesus agradou todo mundo, então quem são eles para agradar.
Pois bem. Tenho um exemplo mais bonito — e talvez mais pitoresco.
Nem Jesus foi bondoso o tempo todo. Quanto mais eu.
Há uma passagem bastante conhecida da Bíblia em que Jesus chega furioso ao Templo de Jerusalém e encontra cambistas e mercadores transformando a casa do Pai num shopping center espiritual. Em vez de oração, lucro; em vez de reverência, taxa de câmbio.
Gosto de imaginar que Jesus não apenas virou mesas — como diz o texto — mas perdeu completamente a linha. Saiu distribuindo empurrão santo, chicote improvisado (feito de cordas, para constar), jarro no chão, pombo voando, camelo assustado, moedas rolando como ficha de cassino. Se existisse extintor de incêndio na época, ele teria sido disparado por milagre, igual o Didi fazia em Trapalhões.
Tudo isso enquanto os guardas do Templo tentavam contê-lo, e Jesus, suspenso pelos braços, chutava o ar em revolta messiânica, gritando aos pulmões:
— Vocês sabem com quem estão mexendo? Me põe no chão! Vocês não sabem quem é meu Pai!
— Sou Jesus de Nazaré, o Messias! Deixa eu ver teu nome… tá anotado aqui. Fica tranquilo que eu vou lembrar de você no Juízo Final.
Moral da história:
se nem Jesus manteve a compostura o tempo todo, eu não vou fingir santidade em horário comercial.
Bondade, sim.
Mas com pausas estratégicas.