A CIDADE DOS SONHOS É REAL
DAVELEDAVE.RECANTODASLETRAS.COM.BR
Poucos filmes suportam o peso de serem revistos sem perder força. Cidade dos Sonhos é um deles. Não porque seja “difícil”, mas porque exige do espectador algo raro: aceitar que o cinema não está ali para explicar, e sim para operar. O que está em jogo não é a compreensão imediata, mas a revelação progressiva de um mecanismo — íntimo, cruel e profundamente humano.
Não por acaso, trata-se de um dos raríssimos filmes a figurar entre os 100 melhores de todos os tempos pela Cahiers du Cinéma, ao lado de Fale com Ela, de Almodóvar, os únicos a partir do século XXI. Seu estatuto de culto não foi imediato. Quem o viu na estreia provavelmente saiu da sala sem entender — e isso é perfeitamente compreensível. Este é um filme que funciona como certos jogos de videogame: para acessar o final verdadeiro, é preciso jogar mais de uma vez. Ou, mais apropriadamente, assistir mais de uma vez.
E o mais impressionante: apesar da complexidade, o roteiro é perfeito. Não há pontas soltas. Não há ambiguidades gratuitas. Tudo fecha — e é justamente por isso que o filme é genial.
O erro mais comum ao se falar de sonhos é remetê-los automaticamente ao inconsciente freudiano, como se fossem resíduos simbólicos de desejos reprimidos. Cidade dos Sonhos mostra outra coisa: o sonho não é fuga da realidade — é um mecanismo ativo de produção de desejo. E, portanto, de realidade.
Aqui, o sonho não encobre a verdade. Ele a reorganiza para torná-la suportável. Por isso, o sonho é real.
O filme se divide em dois grandes blocos: sonho e realidade. Mas atenção: a realidade não é apresentada de forma cronológica. Vou reconstituir a história na ordem real dos acontecimentos, mostrando como a realidade engendra o sonho — e não o contrário.
Betty é uma jovem atriz canadense, loira, confiante, cheia de talento e potência. Ela chega a Hollywood para passar um tempo na casa da tia. Ao chegar, encontra uma mulher morena que perdeu a memória após um acidente de carro. Sem saber seu nome, essa mulher se batiza como Rita.
Rita carrega apenas uma bolsa com muito dinheiro e uma chave azul. As duas passam a investigar quem ela é. Dividem a cama — por conveniência — e acabam se envolvendo sexualmente em uma das cenas mais eróticas da história do cinema. De madrugada, Rita diz que precisa ir a um lugar: o Clube Silêncio.
Ali, um apresentador anuncia: “Silêncio. Não há banda. Tudo é gravação.” Os atores não atuam. Tudo é uma ilusão. Como um sonho.
No clube, encontram uma caixa azul — aberta pela chave que Rita carrega. E o que essa caixa abre?
A realidade.
Após a abertura da caixa, o filme corta abruptamente. Betty reaparece — mas não é mais Betty. Agora ela se chama Diane Rhodes. Mora em um apartamento miserável, é alcoólatra, fracassada, vive reclusa, dormindo. Algo aconteceu.
A morena reaparece. Seu nome verdadeiro é Camila Rhodes. Diane e Camila foram amantes. Mas tudo mudou. Camila ascendeu em Hollywood, vai estrelar um filme e abandona Diane para ficar com o diretor. Ainda assim, convida Diane para a festa de anúncio do filme — gesto que apenas intensifica a humilhação.
Enquanto Diane afunda, Camila prospera. E agora vai se casar.
É nesse ponto que a chave azul ganha sentido. Diane, consumida por ressentimento e inveja, encomenda a morte de Camila. O dinheiro usado é o prêmio que ela ganhou em um concurso de dança, mostrado logo no início do filme. O assassino diz que o sinal de que o trabalho foi feito será a chave azul.
“E o que ela abre?”, pergunta Diane.
O assassino ri.
A primeira parte do filme — o sonho — é o mecanismo psíquico de defesa de Diane diante da culpa e do remorso por ter mandado matar Camila. Todos os personagens do sonho são reorganizações simbólicas dessa culpa.
No sonho, Diane não fracassa por falta de talento, mas pela corrupção do sistema. O diretor é subornado por figuras grotescas — o homenzinho, Mr. Roque, o cowboy. No sonho, o diretor é punido: traído pela esposa, arruinado financeiramente, forçado a ceder.
A Camila do sonho não é a Camila real. É uma figura deslocada, um simulacro — uma amante substituta, esvaziada de poder real.
E o local do assassinato? A lanchonete. É ali que surge a cena mais aterradora do filme: o mendigo que vive atrás do restaurante. Que compartilhei no meu instagram. Veja:
https://www.instagram.com/reel/DSxGIX7gPgE/?igsh=ZTVlOWw0czRjMnRs
Ironia absoluta: a única coisa verdadeiramente real em todo o filme é o mendigo. Aquele que vive à margem da sociedade é quem guarda a caixa azul — o cofre simbólico da sociedade capitalista, onde repousam nossos sonhos de consumo, sucesso e reconhecimento.
Ele não sonha. Ele guarda os sonhos dos outros.
E é por isso que Cidade dos Sonhos não é sobre ilusões. É sobre como a realidade, quando insuportável, fabrica sonhos para continuar existindo.