O BLOQUEIO É UMA FALTA DE EDUCAÇÃO
(às vezes)
DAVELEDAVE.RECANTODASLETRAS.COM.BR
Para o bem e para o mal, sabemos de nós pelo olhar do outro. Pelo espelho. Pelo reflexo que o outro nos devolve sobre aquilo que somos — ou que parecemos ser. Mas nem sempre a imagem que retorna é precisa. Às vezes, ela revela mais sobre quem olha do que sobre quem é olhado.
É nesse ponto que o bloqueio nas redes deixa de ser apenas um gesto técnico e passa a ser um gesto simbólico. Um sintoma. Um recuo. Às vezes, uma confissão silenciosa de incapacidade de lidar com aquilo que desestabiliza.
Vejam meu Instagram:



As primeiras imagens dizem exatamente o que ele comunica. Não há truque. Não há performance ensaiada.
Sabe aquela expressão: “não entendeu, quer que eu desenhe?” Pois bem — o meu Instagram é esse desenho. Um esquema visual para quem não consegue compreender, nos textos, a tese que sustento sobre o modo de existir.
No meu Instagram vê-se um sentido estético forte: filmes clássicos de arte, rotina, dieta, treino, livros. Não é performance. É existência. Eu apenas mostro o que sou.
Minha tese é simples: isso é ser cool. E envolve, inevitavelmente, um certo desprezo pelo mainstream. Não no sentido da pose arrogante, mas da recusa silenciosa. Aparentar fazer tudo como os outros — mas, no fundo, não fazer nada exatamente igual a ninguém.
Não ficar postando foto enchendo a cara. Não ostentar o que não se tem nem o que não se vive. Não sorrir em foto enquanto a vida conjugal desaba em silêncio. Não performar felicidade enquanto por dentro só há tristeza morna.
Eu não me rendo ao algoritmo. Eu me sirvo dele. Preferiria, inclusive, que os vieses dele estivessem todos nos textos do meu site.
IMAGEM, ESCOLHA E RESPONSABILIDADE
O meu Instagram comunica uma imagem. E aquilo que destoa dessa imagem comunica o seu contrário. Como já dizia Jean-Paul Sartre, quando escolhemos, não escolhemos apenas por nós — escolhemos o mundo que decidimos habitar.
E apesar de tudo o que meu Instagram mostra, eu já fui bloqueado mais de uma vez. Existe, claro, uma etiqueta nas redes. Mas posso garantir: fui bloqueado por ser educado, espirituoso ou simplesmente por existir. Nunca por ofender.
Quando faço uma diagonal entre os perfis que essas pessoas seguem e contrasto com o meu, o resultado diz mais sobre elas do que sobre mim.
Se você me bloqueia e, ao mesmo tempo, convive virtualmente com gente enchendo a cara, ostentando o que não tem, glorificando a marginalidade, a prova está dada. Não apenas da frase citada acima, mas também de quem você escolhe observar — e de quem você escolhe evitar.
Somos também a média de quem escolhemos manter por perto. É por isso que você dá um chute numa moita e dela saem pessoas que sabem mais ou menos as mesmas coisas, que pensam de modo semelhante, que vivem de modo parecido.
No meu perfil, observa-se alguém em constante movimento, evolução e modificação. Em outros, a única coisa que avança é a barriga.
É nesse sentido que o bloqueio é, sim, uma questão de educação — e, muitas vezes, de cultura. Ou, mais precisamente, da falta dela.