FINALMENTE: MINHA OPINIÃO SOBRE ANORA!
DAVELEDAVE.RECANTODASLETRAS.COM.BR
Há textos que nascem para registrar uma impressão.
Outros, para encerrar uma discussão.
Este é do segundo tipo.
Depois de quase um ano desde que comecei — assistindo aos primeiros 40 minutos e ficando apenas com uma impressão parcial — finalmente concluí Anora, filme de Sean Baker, e escrevo aqui uma opinião que, modestamente, pretendo que encerre o debate sobre a qualidade da obra.
A forma como assisti ao filme importa — e muito. Porque o próprio filme se divide, estrutural e simbolicamente, em dois momentos claros: o encontro e o casamento entre Anora e o magrelo; e, depois, o instante em que os pais dele descobrem a união e o filho foge. A partir do segundo ato, o filme muda completamente.
Sean Baker — que espero que tenha ganho, além de Melhor Filme, também Melhor Direção — consegue a proeza de brincar com a ideia de plot twist e com a fronteira entre ficção e realidade. O truque é simples e genial: o “plot twist” do filme é apenas cumprir aquilo que de fato aconteceria na realidade se uma garota de programa se casasse com um bilionário.
Para quem assiste ao casamento, ao modo ardiloso de Ani — que lembra Sherazade, de As Mil e Uma Noites, em esperteza e astúcia — e ao jeito como Baker filma tudo com cenas realistas, fotografia crua e quase documental, cria-se a ilusão de que ela vai sair bem. Acredita-se que, como em Saltburn — que fez enorme sucesso em 2023 sobre qual já escrevi — ela ficaria com tudo da família russa.
Mas o filme vira o jogo para dizer: não. Isso tudo foi apenas uma infantilidade de um personagem que encarna a geração Z se fosse rica. O casamento é resolvido por adultos de verdade: advogadas e, sobretudo, pela chefe da família — a mãe, figura que tradicionalmente mais preza pela reputação. O pai enxerga tudo como mais uma idiotice do filho mimado, que foge dos próprios pais por medo.
Ani termina o filme sem nada. Presa ao eterno retorno da própria vida. Fazendo sexo em troca de gratidão — simbolizada no anel de casamento que o capanga consegue roubar. E, na cena final, a atriz entrega algo raríssimo: orgasmo misturado com choro, expressão cristalina da consciência brutal de sua condição e de sua relação com o mundo.
Eu já havia elogiado a atriz antes — e elogio ainda mais agora, ao término. Com todo respeito à Fernanda Torres, seria uma vergonha não dar o Oscar à atriz que interpretou Ani. Ela entregou tudo o que se exige de uma atuação melodramática — e aquilo que é mais difícil de alcançar.
Ela transou com realismo, sorriu, chorou, interpretou orgasmos, brigou, fez stripper, rebolou. Faltou o quê? As melhores cenas, claramente, são diálogos improvisados. Atuou em duas línguas. Trata-se, sem exagero, de um dos Oscars mais merecidos da história.
O filme melhora com o tempo, quando percebemos exatamente para onde tudo caminha: a aparição dos “toros”, o modo como o juiz que anula o casamento chama o rapaz de “paleto caramelo” rs, o absurdo da situação e, principalmente, a lição de moral explícita que o filme oferece aos mais jovens:
“Burros, sem respeito pelos mais velhos, sem ética de trabalho — só Instagram e TikTok, Instagram e Tiktok..."
O mais irônico é que o filme provavelmente fará mais sucesso justamente entre essa geração — que sequer percebe que está sendo criticada.
O modo como o filme é rodado é propositalmente frenético. Faz você quase sentir TDAH: tudo precisa ser rápido, urgente, excessivo. É uma estética que reflete exatamente o que os jovens buscam — e o vazio que isso produz.
Até a trilha sonora segue essa lógica: músicas fáceis, inofensivas, hits claramente moldados por algoritmo. A banalidade do uso de vape, álcool e drogas aparece não como transgressão, mas como comportamento socialmente reforçado.
Embora seja uma produção americana com atores russos, o filme é universal. Porque a idiotice juvenil é universal.
Cabe lembrar Nelson Rodrigues, em um conselho que segue atualíssimo: “Jovens, envelheçam.”
A única coisa positiva do magrelo idiota é que o jogo que ele jogava era Bloodborne.