35 ANOS DEPOIS, O QUE APRENDEMOS COM BONS COMPANHEIROS, DE SCORSESE?
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Três mil visualizações e mais de trezentas curtidas em vinte e quatro horas no meu post do Instagram sobre a cena icônica de Joe Pesci e Ray Liotta — o famoso “Funny how?” (“Engraçado como?”). Aquela virada súbita de humor que transforma uma confraternização mafiosa em um clima de mal-estar absoluto. Vocês sabem: aquele ambiente é sempre perigoso.
O curioso é que essa cena foi basicamente improvisada em Bons Companheiros (Goodfellas), de Martin Scorsese. E isso apareceu num perfil anônimo como o meu, cujo único objetivo é o dolce far niente e a criação de si mesmo como obra de arte. Se serve para alguém, ótimo. Se não serve, ótimo também. É equivalente a dizer que o reel viralizou. Você pode assistir lá. Ou aqui, acessando o link: https://www.instagram.com/reel/DSzum4jAO6O/?igsh=MTIwc3AwNzdzM2lraQ==
Engraçado pensar que a maior parte das pessoas que curtiu ou viu o vídeo provavelmente jamais assistiu ao filme — ainda mais legendado. Bons Companheiros concorreu ao Oscar de Melhor Filme e Melhor Direção no ano em que eu nasci. Foi lançado em 1990. Ou seja: já é um clássico de mais de trinta e cinco anos, baseado em uma história real.
A narrativa acompanha Henry Hill, um garoto meio irlandês, meio italiano — algo que dialoga diretamente com Gangues de Nova York, do mesmo Scorsese. Um projeto que ele acalentava desde os anos 1970 e só conseguiu realizar em 2002. Um filme que, ao meu ver, não reflete nem de longe o que poderia ser, especialmente se comparado à força histórica e simbólica de Bons Companheiros.
As máfias retratadas no filme são reflexo direto da própria história de imigração desordenada de Nova York, marcada por comunidades italianas, irlandesas e outras que disputavam espaço, poder e sobrevivência.
Scorsese nasceu na Little Italy, um bairro pobre de imigrantes italianos, e cresceu cercado por esse ambiente mafioso. Não como membro, mas como observador atento. É dali que vem a matéria-prima do seu cinema.
O filme é baseado no livro do jornalista que registrou as delações de Henry Hill, responsável por expor os principais mafiosos da época e contribuir para o desmantelamento das máfias em Nova York.
No final da vida, Henry delatou todo mundo e entrou para o programa de proteção a testemunhas. Mas foi expulso em 1987 por ter se envolvido novamente com tráfico. Fugiu da máfia, viveu até 2004 e morreu alcoólatra, pobre e esquecido.
Jimmy, seu “goodfella”, morreu na cadeia. Quem o inseriu na máfia também teve o mesmo destino. Tommy — o do “Funny how?” — foi morto ainda no filme, executado pela própria máfia.
E qual é a lição de tudo isso?
Apenas dois tiveram glória e morreram(ão) velhos: o jornalista que escreveu o livro e Scorsese, que transformaram aquela história em uma obra imortal.
A lição principal é simples e brutal: dinheiro fácil e prosperidade rápida pertencem à ordem do demoníaco — e ainda neste plano levam à falência.
A arte e a escrita, ao contrário, conduzem à glória, à consagração e, até onde podemos saber, são a única forma real de imortalidade.