DAVELEDAVE.RECANTODASLETRAS.COM.BR
Há trajetórias que não pedem explicação sociológica — elas a impõem!
Quem observa a vida de Gabriela Priori antes e depois percebe, com nitidez quase constrangedora, a comprovação da minha tese simples e incômoda: em cinco anos, uma pessoa pode mudar completamente de vida. Não por milagre, mas por leitura correta do tempo histórico.
Basta olhar o YouTube antigo dela — hoje cuidadosamente ocultado — para ver uma jovem morando em um apartamento humilde, com uma condição financeira modesta, que sequer permitia preencher completamente uma prateleira de livros. Embora, honestamente, hoje eu desconfie que ali havia mais falta de saber quais livros comprar do que propriamente falta de recursos. O contraste com a vida atual é brutal: uma casa luxuosa, daquelas que facilmente apareceriam na Casa Vogue, com piscina, academia e todo o repertório simbólico que Michel Alcoforado descreveria, sem sombra de dúvidas, como signo indiscutível de “coisa de rico”.
Além de confirmar essa tese temporal, o sucesso súbito de Gabriela Priori escancara como o capital sabe premiar a beleza — sobretudo quando alguém entende como transformá-la em performance. Há, evidentemente, o componente do capital cultural, que funciona como moeda de troca para outros capitais: simbólico, social e financeiro. Mas, no caso dela, o ponto decisivo é outro: trata-se de saber triunfar na sociedade do espetáculo, nos tempos do capitalismo artístico.
Ela compreendeu nossos tempos com uma precisão quase cruel. E foi tão genial nessa leitura que até a escolha do marido entra na equação. Não sei exatamente até onde o dinheiro que circula em sua vida é fruto exclusivo do seu trabalho ou herança do marido, mas o dado sociológico relevante é outro: ela inverteu a lógica do mundo machista. Em vez de ser a Barbie-bibelô, destinada a ornamentar a ascensão masculina, é o marido que ocupa o lugar de ornamento no mundo dela.
Se antes ela encarnava a Barbie comunista, hoje ela é a Barbie patricinha, cujo Ken parece uma figura apagada, talvez rica, talvez apenas funcional — feio e ignorante, quem sabe. Mas esse, convenhamos, é o preço do sucesso. A desconstrução da lógica tradicional não vem sem ruído.
O fator mais incontestavelmente belo do sucesso de Priori, contudo, confirma outra tese minha. A filha, como toda criança, imita aquilo que vê. E lá está ela: aparecendo com livros, dizendo que vai estudar, treinando como a mãe e até falando francês com um sotaque que deixaria provincianos tomados de inveja — algo que soa como uma parisiência quase de nascença.
Isso é fruto de educação. Educação no sentido mais profundo do termo: ambiente, exemplo, incorporação cotidiana de gestos, valores e hábitos. Esse casal — Eduardo e Mônica — se a Mônica fosse uma boneca, teria produzido exatamente o oposto do destino da música. A criança, felizmente para eles, puxou a mãe.