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DAVE LE DAVE
SIM, ELE MESMO
Textos


O “AMOR” NA ERA DOS “CONTATINHOS”

 


DAVELEDAVE.RECANTODASLETRAS.COM.BR

 


 

Há algo profundamente sintomático quando o amor passa a ser administrado como planilha. Quando o encontro deixa de ser risco e passa a ser cláusula. Quando o desejo já nasce fragmentado, terceirizado, terceirizado de si mesmo. Não se trata mais de gostar de alguém — trata-se de distribuir funções, delegar afetos, otimizar carências.

 

Talvez por isso os relacionamentos contemporâneos causem mais estranhamento do que dor. Não porque fracassem, mas porque já começam fracassados, concebidos como contratos de curto prazo, com escopo bem delimitado e expectativa mínima de entrega.

 


 

DO RICO AO MATCH

Michel Alcoforado, antes de analisar a bizarrice das coisas de rico — isto é, os símbolos que, no Brasil, os ricos precisam demonstrar para serem aceitos como ricos socialmente — adentrou uma instituição ainda mais bizarra: os relacionamentos mediados por aplicativos.

 

Ele observa que hoje, através desses aplicativos, as pessoas não procuram mais contatinhos, mas contratinhos.

 

O que se vê é uma divisão funcional do outro: fulano é bom para conversar; outro, para sexo; esse aqui, para dar risada; aquele, para desabafar; um para ver séries. Cada pessoa reduzida a uma utilidade específica, como se o encontro fosse um portfólio de serviços emocionais.

 

E existe o topo da hierarquia, que ele exemplifica com os blind dates arranjados na Coreia do Sul: o homem para casar. Normalmente aquele que trabalha na Samsung. Mas não se iluda: o contrato do casamento não garante os outros contratos da felicidade.

 


 

O BALANÇO AFETIVO

O exemplo perfeito disso está no texto da autora que eu compartilho ao final da análise. Ela se refere à própria vida amorosa como um balanço afetivo de mercado, como se prestasse contas a acionistas, sendo ela mesma a empresa que paga dividendos em forma de afeto.

 

Ela fala de sexo com uma naturalidade que nem eu ousaria nos meus textos mais intimistas. Mas o que realmente chama atenção não é a franqueza sexual — é o vocabulário econômico aplicado ao desejo.

 

Mais grave ainda: os parceiros deixam de ser indivíduos singulares, livres, imprevisíveis, e passam a ser descritos por suas profissões ou funções sociais.

 

Quando os acompanhantes deixam de ser descritos como indivíduos e passam a ser definidos por suas profissões ou papéis sociais, negando sua liberdade — como o garçom de Sartre, que interpreta socialmente o papel de garçom, como se fosse um ator profissional — é porque não há como dar certo. É o que o filósofo francês chama de má-fé.

 


 

O CONTRATO ERRADO

Em outro texto, a mesma autora relata ter ficado decepcionada porque convidou um homem para "dormir", cozinhou, preparou tudo, e ele não retribuiu com o mínimo que ela esperava: um sexo decente. Apenas deu risadas.

 

A conclusão dela é reveladora: ela teria estabelecido o “contrato errado”. Para ela, esse homem deveria ocupar o contrato da risada, enquanto outro deveria ocupar o contrato do sexo.

 

É assim que a geração Z — líquida — lida com relacionamentos: por compartimentalização afetiva. Um para cada função. Nenhum inteiro.

 


 

IMAGEM, PROMESSA E CORPO

Isso acontece porque, através das redes, as pessoas constroem imagens que não conseguem sustentar na vida real. Uma coisa é mandar nude, fazer sexting, prometer. Outra coisa é, de fato, fazer.

 

É como em O Lobo de Wall Street: aquela cena em que Leonardo DiCaprio goza em dois minutos e, para ele, foi a melhor transa da história — porque considerou apenas o próprio desejo. Enquanto Margot Robbie permanece ali, impassível, quase como uma boneca, não como uma pessoa.

 

Ali, ela entende que é hora de separar. Porque, por mais rico que Jordan Belfort fosse, aquilo não era relacionamento — era uso.

 

Os homens gozam, em média, em cinco minutos. Mulheres levam, em média, quinze minutos apenas para estarem fisiologicamente prontas para o sexo. Isso, por si só, já deveria ser uma tese de mestrado.

 


 

PALAVRA, ATO E DESAFIO

Se eu também apenas falo e não faço, devolvo com outro desafio.

 

Pegue o tempo do relatório que você gasta no Instagram ou em redes sociais. Durante uma semana, em vez de entrar nesses apps, acesse meu site: textos novos, antigos, aleatórios.

 

Ao final do experimento, diga qual experiência proporcionou mais evolução.

 

Você mesma terá a sua resposta.

 


 

O TEXTO DA AUTORA A QUE ME REFIRO ESTÁ ABAIXO

 

 

 

ESCRITOR DAVE LE DAVE II (OFICIAL)
Enviado por ESCRITOR DAVE LE DAVE II (OFICIAL) em 25/12/2025
Alterado em 25/12/2025
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