MULHER NÃO GOSTA DE HOMEM FROUXO?
DAVELEDAVE.RECANTODASLETRAS.COM.BR
Há perguntas que incomodam não pelo que afirmam, mas pelo espelho que erguem. Esta — incômoda, provocadora, quase indecorosa — nasce de uma reflexão em vídeo de Luiz Felipe Pondé.
Confesso que há algo de ironicamente cômico nessa reflexão vindo de alguém como ele. Quando descobri Pondé, há mais de dez anos, ainda nos tempos de CBN, cheguei a supor que fosse homossexual — não por conteúdo, mas pela entonação da voz. Ele lembra aquele tipo curioso de figura pública que fala grosso com a voz fina, como o senador Randolfe Rodrigues.
Há, em Pondé, uma tentativa deliberada de dizer absurdos como quem deseja provar diferença. Um esforço visível de parecer interessante, polêmico, deslocado. O resultado, muitas vezes, soa como uma cópia cômica — uma caricatura mal resolvida entre Nelson Rodrigues e Paulo Francis, sem a originalidade cortante de nenhum dos dois.
Isso se estende à performance estética: a barba cuidadosamente desgrenhada, o figurino sem qualquer sentido estético, sempre maior que o próprio corpo, como se herdado do bisavô "Pondé". Some-se a isso uma negligência visível com os dentes, ternos desbotados, ar cansado, vestígios de caspa. A imagem, nesse caso, não nega: basta assistir ao vídeo.
E há ainda a contradição óbvia: critica o YouTube e o Instagram enquanto atua como influencer típico, com mais de um milhão de seguidores. Um iconoclasta que monetiza o próprio martelo.
Derrubados os pés de barro, é preciso reconhecer o mérito. Pondé é, sem dúvida, mais professor do que palestrante. Diferente de figuras que transformam o pensamento em espetáculo, ele mantém certa contenção. Há nele uma preocupação genuína em escrever, traduzir e trazer a filosofia ao cotidiano.
E isso não é pouco. Se a filosofia abdica de sua vocação original — ajudar o homem a refletir sobre a vida e a viver o pensamento —, então resta o quê? Academicismo estéril ou autoajuda travestida de erudição.
Politicamente, Pondé é coerente. Herdeiro de uma tradição cética que remonta a Montaigne, é de fato um liberal conservador — não um “pornofilósofo” histriônico à maneira de Olavo de Carvalho.
Gosto particularmente de como ele aproxima o pensamento filosófico daquilo que há de mais arcaico no humano: sua animalidade. O homem não é apenas cultura, discurso ou performance — é também instinto, corpo, medo e proteção.
Biologicamente, o amor não é um poema: é seleção. Mulheres tendem a se vincular ao homem capaz de gerar bons filhos e oferecer segurança. Sensibilidade, no discurso, é celebrada. Mas isso não implica tolerância à frouxidão, à covardia, à incapacidade de proteger.
O homem excessivamente frágil pode até ser elogiado em teoria — mas raramente é desejado na prática.
CONCLUSÃO
No fim, gosto de Pondé. Gosto porque, mesmo falando fino, consegue dizer coisas grossas. E talvez seja exatamente isso que mais incomoda: não o tom da voz, mas o fato de que, em meio às caricaturas e contradições, ainda há ali uma verdade difícil de engolir.