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Descobri por acaso — como
quase tudo o que realmente importa. Um clique curioso no perfil da filha de alguém que sigo no Instagram, um desvio motivado pelo gosto cinematográfico do pai, e de repente eu estava diante de uma plataforma que, ironicamente, parecia realizar aquilo que um dia imaginei para a reforma do Recanto das Letras.
O nome é Letterboxd. Uma rede social dedicada exclusivamente ao cinema. Organizada, funcional, visualmente limpa. A proposta é simples e, por isso mesmo, poderosa: pesquisar filmes, acompanhar listas, saber em quais salas ou streamings eles estão disponíveis.
link para meu perfil: https://boxd.it/hXa7D
O problema aparece logo depois do primeiro fascínio. A navegação não é intuitiva nem mesmo para quem domina inglês e tecnologia. Para pessoas menos familiarizadas, o sistema se torna rapidamente hostil. O resultado é previsível: a plataforma funciona como uma espécie de “Roblox do cinema” — uma vitrine frenética para a geração Z (ou Z+), de Enzos, passando por Bernardos, chegando até as Valentinas, onde a forma se impõe sobre o conteúdo.
A profundidade das análises acompanha esse espírito. Comentários rápidos, impressões instantâneas, juízos ligeiros. É como se Instagram ou Facebook tivessem adicionado uma função para comentar filmes. Análises densas são raras; resenhas, quando existem, mal merecem o nome.
Mesmo assim, algo me chamou atenção: o perfil da filha do jornalista. Filmes pesados, esteticamente exigentes, alguns até difíceis para mim. Resolvi comentar. Curti por generosidade, escrevi observações breves, valorizando o esforço — não o texto em si, mas o gesto. Sei o que significa, para alguém jovem, sustentar um gosto tão dissonante da média. Quis legitimar.
Resultado? Em poucos minutos, fui bloqueado.
Quem me lê sabe: no meu caso, o bloqueio costuma significar o contrário do que aparenta. Meus leitores mais assíduos no Recanto das Letras são, muitas vezes, pessoas que me bloquearam em redes sociais. Não me surpreenderia se ela também me bloqueasse e, ainda assim, estivesse entre meus leitores silenciosos — talvez até o pai.
Há um tipo específico de pessoa para quem meu perfil é, digamos, difícil de ignorar: gente de bom gosto, levemente deslocada do mundo, ainda sem plena consciência da própria singularidade. Aqui, encontram um espelho.
O que reforça minha tese é um detalhe curioso. Pela manhã, comentei um post do pai. Ela estava marcada. Fui ao perfil: não havia link algum. Mais tarde, após um like recebido, voltei — e o link estava lá. Uma rede social de cinema.
Quem visita minha página sabe: eu posto basicamente quatro, talvez cinco, coisas — cinema, treino, dieta, literatura, palmeiras. Não é performance. É rotina. Eu apenas mostro o que faço.
Como lembram Sigmund Freud e Carl Jung, nada é pequeno demais — ou coincidência demais — para não significar alguma coisa.
Talvez ela tenha me bloqueado e continue lendo minhas resenhas. Talvez seja uma dessas leitoras que passam mais de uma hora no meu site. É perfeitamente plausível.
E, se for o caso, fico honrado. Vocês que gastam esse tempo comigo fazem uma escolha intelectualmente mais interessante do que rolar infinitamente o feed do Instagram.
Vou compartilhar, ainda assim, meu perfil recém-criado para quem quiser entrar. Não tenho a menor intenção de atualizar tudo o que assisto. Isso consumiria tanto tempo que daria para rever todos os filmes que já vi.
Para se ter ideia: a lista dos 100 melhores da Cahiers du Cinéma eu já percorri inteira. Assisti a cinematografias completas. Passei pelo cinema mudo, pela era de ouro de Hollywood, pela Nouvelle Vague, pelo neorrealismo italiano, o expressionismo alemão, pelo Cinema Novo — a Nouvelle Vague da Shopee —, pela Nova Hollywood, pelo cinema independente e pelo europeu contemporâneo. Vi a maioria dos vencedores de Cannes e do Oscar.
Prefiro assistir e escrever no meu site a manter uma rede social de filmes.
Ainda assim, a plataforma é útil para algo específico: descobrir em qual streaming um filme está disponível. Essa, de fato, é sua principal funcionalidade.
Talvez, eventualmente, eu crie algumas listas temáticas, muito pessoais, dos filmes que amo. Mas cinema, para mim, continua sendo experiência — não engajamento.