O BEBÊ DE ROSEMARY ( e de Napoleão)
DAVELEDAVE.RECANTODASLETRAS.COM.BR
O terror verdadeiro não precisa de gritos, sangue ou perseguições. Ele nasce quando algo essencial é trocado sem alarde. Quando o espírito é negociado com a mesma frieza de um contrato. Quando o amor cede lugar ao cálculo. O terror, no fundo, é sempre um pacto.
Talvez por isso eu nunca tenha me interessado pelo cinema de terror tradicional. A violência gratuita pouco acrescenta à sétima arte. Ao longo da vida, assisti a pouquíssimos filmes do gênero. Entre eles, Good Boy, em que um homem obriga outro a se fantasiar de cachorro e viver como se fosse um, apenas para o seu bel-prazer em satisfazê-lo, e O Bebê de Rosemary. Ambos recusam o choque fácil e apostam no horror psicológico — e, de maneiras distintas, falam do mesmo tema: pessoas que se vendem ao mal para enriquecer ou que, ao enriquecer, passam a produzir a própria maldade.
Há ainda um tipo de terror mais sofisticado, quase imperceptível. Em A Fita Branca, lembro-me de espectadores saindo da sessão confusos, perguntando-se se haviam acabado de assistir a um filme de terror. Haviam. Mas de um terror ético, estrutural e histórico — aquele que não assusta, mas inquieta.
Muitos já escreveram sobre O Bebê de Rosemary. A novidade aqui não está na análise direta do filme, mas no desvio que ele permite. Este texto, na verdade, também fala sobre Napoleão, de Ridley Scott. O que não é arbitrário: Napoleão constrói sua fama após o chamado Período do Terror na França, instaurado depois da morte de Robespierre. O terror político e o terror psicológico obedecem à mesma lógica: ambos se sustentam por pactos.
Em O Bebê de Rosemary, a história é conhecida. Uma jovem vive com o marido e tenta engravidar em uma relação morna, quase administrativa. A cena de sexo — fria, burocrática — é, paradoxalmente, o ponto mais perturbador do filme. Não pelo ato em si, mas pelo que ele revela: um vínculo totalmente moldado pelo interesse material.
O marido está disposto a tudo por dinheiro e reconhecimento. Inclusive a oferecer o corpo da própria esposa como instrumento de um pacto macabro. A criança que nasce não é demoníaca apenas por sua origem sobrenatural, mas porque é fruto de uma relação já corrompida. O mal não começa no bebê. Começa no acordo.
Polanski constrói aqui uma alegoria moderna do pacto fáustico. A troca do corpo por bens materiais remete diretamente ao contrato de Mefistófeles em Fausto, de Goethe. É o legado da burguesia e de seus valores: a redução do humano ao útil, a expulsão do espiritual como algo irrelevante — ou, ironicamente, demoníaco.
É preciso reconhecer: Polanski é um gênio do cinema, compreendia a linguagem cinematográfica melhor do que muitos de seus próprios diretores de fotografia. Um dos maiores cineastas da história. E, ao mesmo tempo, uma péssima pessoa. As duas coisas coexistem, ainda que isso nos desagrade.
O Bebê de Rosemary integra a chamada “trilogia do apartamento”, ao lado de Repulsa ao Sexo e O Inquilino. Filmes atravessados pela paranoia feminina, pela fragmentação do eu e pela sensação de aprisionamento. É nesse ponto que o diálogo com Napoleão se torna evidente.
No filme de Ridley Scott, Napoleão — o maior estrategista militar de sua época — é apresentado como um homem emocionalmente dependente de Josefina. Ela personifica tudo o que ele não é: aristocrata, socialmente legitimada, sedutora. Napoleão cresce por mérito próprio, político e militar, vindo do exército. Josefina circula com desenvoltura no mundo do prestígio, da traição e do capital simbólico.
Ele deseja um herdeiro para legar sua história. Ela encontra amor e prazer fora do casamento. A assimetria é brutal. O homem que derrota impérios sucumbe diante de um inimigo mais frágil apenas na aparência: o amor — ou, mais precisamente, a dependência afetiva travestida de amor.
É curioso observar como uma figura histórica tão poderosa, o último grande conquistador à moda dos césares, vence todos os adversários externos, mas se curva diante de um vínculo íntimo corroído. De conquistador, torna-se conquista. De soberano, dependente.
Napoleão não tem filhos com Josefina. Como Brás Cubas, não herda sua miséria a ninguém. E talvez seja aqui que o paralelo com O Bebê de Rosemary se fecha: que tipo de filho poderia nascer de uma relação fundada na troca do afeto por bens materiais?
O bebê demoníaco não é monstruoso por ser filho do diabo, mas porque nasce de uma relação já demoníaca. O mal está na coisificação do amor, na venda do corpo, na instrumentalização do outro. Uma relação assim não pode gerar vida saudável porque é, em essência, o contrário do bem.
Essa troca pelo demoníaco não ocorre apenas no cinema. Ela acontece quando se abandona aquilo que Cristo pregou — amor, misericórdia e compaixão — em favor da prosperidade material. Quando a fé se transforma em barganha e a igreja em uma grande maçonaria de interesses e lucro. Nesse momento, o pacto já foi assinado.
Sinto menos horror pela criança do que pelo mundo que a cerca. Mesmo sendo filha do diabo, o verdadeiro inferno é o ambiente em que ela nasce. Ela não herdará algo do humano, mas o resíduo de um acordo. Não receberá o legado de um pai, mas a marca de uma escolha: trocar o espírito pelo enriquecimento pessoal. Isso, sim, é o terror absoluto.