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DAVE LE DAVE
SIM, ELE MESMO
Textos

 

COMO AGOSTO VIROU AMOSTO

 


 

DAVELEDAVE.RECANTODASLETRAS.COM.BR

 


 

Há palavras que não explicam o mundo — reorganizam-no. Não descrevem um estado; instauram outro. Amosto é uma dessas palavras. Ela nasce quando o tempo falha, quando o calendário não dá conta da experiência, quando agosto já não basta para nomear o que se sente.

 

Não é metáfora gratuita. É necessidade. Porque há afetos que não cabem no vocabulário ordinário — e, quando não cabem, exigem criação.

 


 

AMOR, PRAZER E A DIFERENÇA ENTRE PROMETER E SUSTENTAR

Um dos meus textos mais lidos é a resenha sobre o filme Curiosa, um drama erótico em que Pierre, libertino contumaz, afirma à amante que, com ele, ela conheceria o verdadeiro significado do prazer.

 

Ao escrever aquela resenha, algo me entristeceu. Não pelo filme em si, mas pelo espelhamento involuntário entre a narrativa e minha própria vida. Percebi que, para a pessoa em quem eu penso nesse momento, eu jamais teria a arrogância — ou a leviandade — de prometer prazer.

 

Mas haveria algo que eu afirmaria, sim, batendo no peito, sem hesitação: comigo, ela entenderia o significado da palavra amor. Não como ideal romântico, mas como experiência encarnada. Amor como força que reorganiza o corpo, o tempo e o mundo.

 

E é exatamente essa força que permite que agosto — mês duro, excessivo, instável — se transforme em amosto: algo maior que gostar, algo anterior ao amor pleno, mas já radicalmente distinto da indiferença.

 


 

AGOSTO, O CORPO E A QUEDA NA ALOSTASE

Agosto foi simbólico também por outra razão. Talvez por excesso de confiança, talvez por negligência com os próprios limites, meu corpo entrou em desequilíbrio. Um estado claro de alostase: quando o organismo já não consegue se autorregular frente às exigências do ambiente.

 

O corpo acusou. E quando o corpo acusa, não é moral — é biológico, afetivo, existencial.

 


 

O CORPO SEM ÓRGÃOS E O CAMPO EXPERIMENTAL DO DESEJO

Em outro texto meu, ao aproximar a esquizoanálise da neurociência, retomei o conceito de Corpo sem Órgãos: esse campo experimental onde o desejo acontece quando se suspende a lógica conservadora, funcional e hierárquica dos órgãos.

 

O Corpo sem Órgãos não é ausência de corpo. É superfície ativa. É energia que circula quando o corpo deixa de obedecer apenas à repetição, ao automatismo e à adaptação empobrecida.

 

Mas ele só é possível mediante REterritorialização: a ruptura com os ambientes, hábitos e afetos que nos mantêm sempre iguais.

 


 

TERRITÓRIO, HOMEOSTASE E A ILUSÃO DA ESTABILIDADE

Território, em Deleuze, é o conjunto de forças que nos afetam de modo recorrente. É o ambiente predominante — social, simbólico, afetivo — que molda nossos modos de sentir, pensar e agir.

 

Quando nossos afetos não mudam, nós também não mudamos. Permanecemos os mesmos. A neurociência chama isso de homeostase: o esforço constante do organismo para manter-se igual, mesmo que isso custe vitalidade.

 

É confortável. Mas é empobrecedor.

 


 

REterritorializar PARA RESPIRAR

A reterritorialização saudável acontece quando escolhemos com cuidado o que nos afeta. Quando cultivamos silêncio, solidão, ritmo, atenção. Quando protegemos o corpo daquilo que o invade sem nutrir.

 

É o gesto de reorganizar o território para favorecer a energia vital — não para drená-la.

 


 

DESTERRITORIALIZAÇÃO, LINHAS DE FUGA E RISCO

Já a desterritorialização é o encontro direto com o risco. É a alostase. É o choque entre corpo e mundo quando algo rompe o equilíbrio anterior.

 

As linhas de fuga que emergem daí podem ser criativas ou destrutivas. Podem abrir novos modos de vida ou nos lançar em repetições estéreis.

 

Há corpos sem órgãos ativos — criados por linhas de fuga que promovem bons encontros. E há corpos sem órgãos negativos — aqueles que se entregam a prazeres repetitivos: vícios em jogos, comida, sexo, pornografia, entorpecentes. Não por excesso de desejo, mas por sua pobreza.

 


 

AMOSTO COMO LINHA DE FUGA POSITIVA

Um corpo saudável não nasce do controle absoluto, mas do cuidado com o território. Do zelo pelos afetos. Da escolha consciente dos encontros que aumentam — e não diminuem — nossa potência de agir.

 

E é exatamente esse o efeito que ela tem produzido em mim.

 

Cada vez menos agosto. Cada vez menos alostase. Cada vez menos passado.

 

Cada vez mais presente. Cada vez mais futuro.

 

Dessa forma, agosto tornou-se amosto. E ela é profundamente responsável por isso — não por prometer nada, não por fazer algo extraordinário, mas simplesmente por existir e, sem saber, me inspirar.

 

 

 

ESCRITOR DAVE LE DAVE II (OFICIAL)
Enviado por ESCRITOR DAVE LE DAVE II (OFICIAL) em 17/12/2025
Alterado em 17/12/2025
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