DAVELEDAVE.RECANTODASLETRAS.COM.BR
Quando alguém que conhece meu site — e sabe o tipo de texto que produzo — prefere ignorá-lo para dar atenção a mais de novecentas contas no Instagram, isso me entristece de um modo que não é vaidade ferida. É algo mais grave: é a constatação silenciosa de uma escolha de mundo.
Como alguém que escreve, que pensa, que produz conteúdo com tempo, rigor e intenção, eu sei o valor do que faço. Sei o tempo que levo para escrever (anos, porque no momento da escrita em si, só sou um escriba, um copista). E sei, sobretudo, o quanto o tempo que se passa lendo um texto pode ser mais bem aproveitado do que o tempo dissipado em fluxos infinitos de imagens e estímulos vazios.
Por outro lado, há algo que me devolve o sentido — e que nenhuma métrica de rede social é capaz de medir. As estatísticas do meu site mostram dezenas de pessoas que permanecem ali por trinta minutos, quarenta, uma hora inteira. Em alguns casos, mais de uma hora. Apenas neste mês, quatro acessos ultrapassaram esse tempo. Em outros, até 11. Pouco importa se foram mãos distintas ou a mesma mão retornando. O que importa é o gesto.
Essa é a minha maior remuneração. Em uma sociedade que privilegia o rápido, o raso e o efêmero, eu ofereço apenas textos. E só se permanece tanto tempo diante de um texto quando se gosta, quando se ama, quando algo ali toca. Às vezes, nem séries ou filmes conseguem reter alguém por tanto tempo. Meu site consegue — para um público pequeno, mas atento.
E eu sei, com convicção tranquila, que quem passa esse tempo comigo sai mais sabido, ou ao menos mais desperto. Sai diferente. Sai melhor do que entrou. Foi um tempo de vida bem investido.
Em contrapartida, não tenho dúvidas de que quem passa horas se perdendo nas redes sociais, ao final, desperdiçou tempo de vida. Não por moralismo, mas por constatação. O tempo não retorna. E nem todo tempo vivido nos transforma.
Sartre dizia que, quando escolhemos, não escolhemos apenas para nós mesmos, mas para o mundo que julgamos desejável. Cada escolha cotidiana é uma tomada de posição ontológica: diz que tipo de mundo consideramos aceitável.
Por isso, quando alguém faz questão de me ignorar — ou até de me bloquear — enquanto preserva amizades, segue centenas de perfis e se mantém fiel à superfície, isso revela com clareza o mundo que essa pessoa considera ideal. Um mundo do raso, do supérfluo, da aparência. Muitas vezes, da aparência que sequer se possui, mas que se consome com devoção.
O que torna tudo ainda mais grave é que, em vez de gratidão ou simples indiferença silenciosa, surge a ameaça: polícia, advogados, intimidação. Como se escrever sobre o que se sente fosse crime. Como se pensar, elaborar, transformar experiência em linguagem fosse uma forma de violência.
Não é.
É, ao contrário, uma das formas mais antigas e mais nobres de humanidade.
E se isso assusta, não é porque há algo errado com a escrita — mas porque ela denuncia, sem gritar, o vazio das escolhas feitas.