DAVELEDAVE.RECANTODASLETRAS.COM.BR
Há um dito popular repetido com ares de sabedoria prática: no amor, não se fala de política nem de religião. A frase soa conciliadora, mas é falsa. Profundamente falsa. As estatísticas — e a experiência cotidiana — mostram exatamente o contrário: o principal fator de afinidade nos relacionamentos é a convergência política; em seguida, a religiosa, ainda que não pertençam à mesma igreja.
Ou seja: tudo aquilo que se diz evitar no amor é justamente o que o estrutura. O amor não paira acima do mundo; ele se enraíza nele. Valores, visão de sociedade, concepção de bem e de mal, ideia de justiça, noção de dignidade humana — tudo isso comparece no vínculo amoroso, mesmo quando fingimos que não.
Não por acaso virou notícia o cancelamento de Zezé Di Camargo em um especial que iria ao ar no SBT, após a emissora receber Alexandre de Moraes e o presidente Lula. O detalhe irônico — quase trágico — é que o festival se chamaria Amor.
Ironia porque o posicionamento político reiterado por Zezé não prega amor algum: sustenta o ódio, naturaliza a violência e flerta abertamente com a antidemocracia. Aqui, o problema não é discordância política legítima; é incompatibilidade ética. Há ideias que não são apenas opiniões — são projetos de destruição.
Vivemos uma inversão de valores que lembra, sem exagero, 1984, de Orwell: o Ministério do Amor é responsável pelo ódio; o da Paz, pela guerra; o da Verdade, pela mentira. Palavras permanecem, sentidos são corrompidos.
É público e notório o caso de um presidente que atentou contra a vida de duas figuras públicas como estratégia de ruptura institucional; que ironizou milhares de mortes durante a pandemia; que combateu a ciência da vacinação; que minimizou o sofrimento coletivo em nome de slogans vazios. A solução simplista para problemas complexos? Armar a população.
Curioso: ele próprio, armado e com formação militar, foi roubado. Ainda assim, sustenta que a arma é o caminho da “revolução”. Mas revolução não é, justamente, aquilo que ele atribui pejorativamente aos comunistas? Que conservador é esse que deseja destruir instituições, despreza a linguagem pública, degrada o discurso, trata mulheres como objetos e acumula fracassos conjugais enquanto posa de modelo da família brasileira?
Some-se a isso o desastre econômico conduzido por Paulo Guedes — um suposto “gênio” que afundou o país em inflação, precarização e concentração de renda, inspirado pela Escola de Chicago e pelo Chile de Pinochet. Convém lembrar: Pinochet foi um ditador sanguinário — tanto quanto Stalin, tanto quanto qualquer tirano que tenha feito da violência método e da miséria, política de Estado.
A mesma inversão se repete no campo religioso. Parte significativa de vertentes que se dizem evangélicas aderiu integralmente ao discurso do ódio, negando frontalmente aquilo que Cristo pregava. Líderes religiosos como Silas Malafaia comportam-se mais como políticos profissionais do que como pastores.
Outros transformaram a fé em produto financeiro: aceitam cartão, Pix, parcelamento; financiam a “salvação”; exigem dízimos vultosos enquanto acumulam patrimônio e não pagam impostos. O sagrado foi convertido em transação.
Ora, Cristo falava da ovelha desgarrada que vale mais que o rebanho; dizia “atire a primeira pedra quem não tiver pecado”; pregava misericórdia, arrependimento, redenção. O discurso de certas igrejas, hoje, é outro: “não tem jeito”, “melhor eliminar”, “bandido bom é bandido morto”. Negam até mesmo a possibilidade de conversão que o próprio Cristo instituiu ao morrer na cruz.
Se Lutero ressuscitasse, insurgir-se-ia contra o protestantismo que ajudou a fundar. Provavelmente convocaria uma nova Reforma — desta vez contra o mercado da fé.
Sou um liberal conservador e democrata, na tradição que vai de Tocqueville a David Hume. Isso significa, antes de tudo, proteger a Constituição e a democracia — como o Supremo Tribunal Federal tem feito, com todos os seus excessos e limites.
Mudanças são legítimas apenas dentro das regras do jogo. Fora delas, não há reforma: há golpe. As instituições brasileiras, goste-se ou não, demonstraram mais resiliência do que as americanas em termos de checks and balances. O Supremo tem poder? Tem. O Congresso também. O Executivo, igualmente. O equilíbrio se dá na tensão — e quem não tem habilidade política é engolido pelo sistema.
Dilma Rousseff foi exemplo disso: talvez a segunda pior presidente da história, incapaz de articulação. Bolsonaro segue o mesmo destino, por razões distintas. Lula, ao contrário, mostrou habilidade ímpar: caiu, queimou-se, e retornou como uma fênix. Política é virtù e fortuna, como já ensinava Maquiavel.
Não sou filiado a partido algum. Votei em Henrique Meirelles — um banqueiro técnico, com trajetória sólida, inclusive no governo Lula — muito diferente de Paulo Guedes, um economista sem obra relevante, sem produção intelectual consistente, elevado a oráculo por puro fetiche ideológico.
O mesmo vale para o constrangimento internacional de tentar nomear Eduardo Bolsonaro para a diplomacia, justificado por sua “experiência” como chapeiro nos Estados Unidos. Isso não é conservadorismo; é deboche institucional.
Insurgir-se contra o governo Bolsonaro — como fizeram verdadeiros conservadores, como Professor Villa e Reinaldo Azevedo — é uma questão de cidadania e humanidade. Reconhecer erros também é dever moral. A Lava Jato, que a princípio pareceu virtuosa, degenerou em instrumento político, assim como a operação Mãos Limpas na Itália.
Urge reconhecer equívocos. Eu reconheço os meus. No início, confundi-me, acreditando agir pelo bem comum da pólis, no sentido grego de Aristóteles. Crescer politicamente é, também, aprender a revisar convicções.
No amor, na política e na religião, fingir neutralidade é apenas uma forma elegante de covardia.