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Há duas confusões recorrentes a meu respeito — ambas igualmente persistentes e igualmente equivocadas. A primeira: a de que eu “falo” no cotidiano da mesma forma como escrevo. A segunda: a de que o Arctic Monkeys seria, sem maiores ressalvas, a melhor banda possível de Alex Turner.
Este texto nasce para desfazer essas duas ilusões. Uma diz respeito à linguagem e à persona; a outra, à música e à hierarquia estética. Ambas, no fundo, tratam do mesmo problema: a dificuldade contemporânea de distinguir função, contexto e intensidade.
No dia a dia — especialmente em conversas de WhatsApp com familiares e amigos — eu sou perfeitamente ordinário. Não escrevo como escrevo aqui. Não elaboro períodos longos, não cultivo imagens, não construo cadência. Isso não é falsidade: é adequação. Vejam, mas a conversa é de alto nível:





Escrever é um regime específico de pensamento. Exige tempo, silêncio, lapidação. Confundir escrita com fala é como imaginar que alguém vive permanentemente em estado de concerto ou de palco. A linguagem cotidiana é funcional; a escrita, quando levada a sério, é arquitetônica.
Conheci Arctic Monkeys em 2006, quando I Bet You Look Good on the Dancefloor explodiu. Aquela energia crua, direta, jovem, parecia anunciar algo novo — ainda que profundamente endividado com The Strokes. Diz-se, inclusive, que Alex aprendeu guitarra tocando suas músicas. Não é difícil acreditar.
O primeiro disco se destaca sobretudo pelas letras. A faixa em questão, curiosamente, faz alusão ao Brasil. Já ali, Alex demonstrava uma atenção incomum à observação social e ao detalhe narrativo. Nos discos seguintes, essa qualidade só se acentuaria, com o próprio Turner citando a influência da literatura fantástica de Gabriel García Márquez.
O segundo álbum ainda sustenta o fôlego, com hits evidentes. O terceiro, porém, cai naquilo que chamo — sem pudor — de maldição do terceiro disco. Não é apenas fraco: é desorientado. Ainda assim, há exceções pontuais, como Crying Lightning e Cornerstone.
Para mim, o ápice do Arctic Monkeys está em AM e no disco imediatamente anterior, quando o som amadurece, desacelera e encontra densidade. O último álbum, infelizmente, é um desastre estético: pretensioso, hermético e pouco inspirado.
Gosto muito mais da fase pós-Humbug do que daquela fase inicial de guitarras nervosas — uma mistura algo apressada de Strokes, Franz Ferdinand e, inevitavelmente, Gang of Four. Era energia, sim, mas ainda sem estilo próprio plenamente consolidado.
Essa trajetória não é exclusiva. The Strokes sucumbiram após Is This It e Room on Fire. Oasis nunca superaram o impacto inicial de Definitely Maybe e (What’s the Story) Morning Glory?. Bloc Party, Franz Ferdinand, The Drums, The Libertines: ótimas bandas que não sobreviveram ilesas ao terceiro disco.
Com o Blur, curiosamente, ocorreu o inverso: o melhor disco é o terceiro, Parklife. Mas casos assim são raros.
Mais raro ainda é quando um projeto paralelo supera a banda original. E aqui chegamos ao ponto central: The Last Shadow Puppets consegue ser melhor do que o próprio Arctic Monkeys. Alex Turner, fora da engrenagem da banda-mãe, soa mais livre, mais sofisticado, mais interessado em forma e atmosfera.
Existem bons exemplos de projetos paralelos: a carreira solo de Julian Casablancas; Albert Hammond Jr.; Little Joy — fruto do encontro improvável entre Rodrigo Amarante e o baterista brasileiro Fabrizio Moretti. Pete Doherty teve seus Babyshambles. Dave Grohl, um ex-baterista razoavelmente conhecido do Nirvana, criou o Foo Fighters e ainda toca bateria no Queens of the Stone Age — basta ouvir No One Knows.
The Last Shadow Puppets é um desses casos felizes em que o projeto secundário ultrapassa a banda original. Não acontece com frequência. Mas quando acontece, revela algo essencial: às vezes, o artista precisa sair de casa para, finalmente, encontrar sua melhor forma.
VOCÊS ESTÃO SE LEMBRANDO DE ENTRAR DIARIAMENTE NO MEU SITE PRA ESCUTAR A MÚSICA QUE COLOCO NA CAPA TODOS OS DIAS? POIS DEVERIAM, PORQUE EU TENHO MUITO BOM GOSTO, COMO SABEM.