DAVELEDAVE.RECANTODASLETRAS.COM.BRNo mundo contemporâneo — aquilo que Gilles Lipovetsky descreveu como o capitalismo estético ou a estetização do mundo — negócios, cultura e vida social tornaram-se profundamente atravessados pela imagem. A aparência deixou de ser um detalhe superficial para tornar-se linguagem, signo, valor simbólico. Nesse contexto, todos nós, sem exceção, tornamo-nos marcas.
Isso vale para celebridades, subcelebridades, influenciadores e também para os anônimos. Alguns ainda não compreenderam essa transformação histórica. A forma como você se apresenta ao mundo — inclusive fora das redes sociais — importa, e importa muito. Não se trata de futilidade nem de hipocrisia, mas de reconhecer que imagem comunica valores, escolhas e limites.
Surpreende-me, por exemplo, ver Vinícius Júnior associando sua imagem a casas de apostas, apesar de todo o capital econômico e simbólico que já possui. É inevitável a pergunta: não há alguém para dizer “Vinícius, isso realmente fortalece a sua imagem?” É uma escolha que comunica muito mais do que parece.
No marketing, existe um conceito central chamado posicionamento de marca. Ao associar sua imagem a um setor que destrói famílias e produz dependência — ainda que faça parte do ecossistema do futebol — o atleta opta por fortalecer um mercado de baixo valor simbólico. São escolhas. E toda escolha posiciona.
Compare-se com David Beckham. Sua imagem foi cuidadosamente construída: grifes de luxo, contratos vitalícios com marcas como a Adidas, carros de alto padrão, um imaginário sofisticado. Sua vida afetiva, seu estilo, sua postura pública — tudo comunica coerência estética e valor.
O mesmo vale para Cristiano Ronaldo, que se associa exclusivamente a marcas de alto prestígio. Em contraste, quando figuras como Neymar, Vinícius Júnior ou até Abel Ferreira promovem apostas, não ganham: desvalorizam-se. Trocam capital simbólico durável por dinheiro especulativo e imediato. Falta consultoria. Falta reposicionamento.
Veja Rayssa Leal: Louis Vuitton, Nike, Gatorade. O dinheiro não vem da competição em si, mas da imagem. O esporte gera visibilidade; a imagem gera valor.
O mesmo se aplica ao campo artístico. Isabelle Drummond — a eterna Emília — é exemplar. Até seu nome no Instagram revela bom gosto: yeuxpapillon, expressão francesa que significa “olhos de borboleta”. Um símbolo de delicadeza, feminilidade e força estética.
Note: não falo do feminismo ideológico e estridente, mas da feminilidade enquanto postura, estilo e valor. Feminilidade não é submissão; é consciência de imagem, reputação e limite. Assim como o homem é julgado por sua postura e escolhas, a mulher também o é — não pelo que faz apenas, mas igualmente pelo que se recusa a aceitar.
Essa lógica não vale apenas para famosos. Vale para nós, mortais. Você acredita mesmo que as pessoas não julgam sua aparência, sua postura, o que sua imagem comunica? Que tipo de sinal você emite ao mundo — e, especialmente, ao mercado de trabalho?
Fotos de bebida, festas descontroladas e algazarra transmitem exatamente isso. E quando você é contratado, perde metade do próprio nome: passa a ser “o fulano da empresa X”. Nenhuma empresa deseja associar sua marca institucional a alguém com imagem negativa ou imatura.
O mesmo vale para relações afetivas. Se você afirma que só atrai pessoas tóxicas, desinteressantes ou de baixo valor, a pergunta é inevitável: que imagem você está projetando para atrair exatamente esse tipo de pessoa?
Vivemos em um capitalismo artístico e estético. A aparência, a linguagem, o gesto e a reputação tornaram-se ativos reais. Ignorar isso não é virtude; é ingenuidade. Cuidar da própria imagem não é vaidade vazia — é responsabilidade simbólica.
Gostemos ou não, todos nós somos marcas. A questão é simples: qual valor a sua está comunicando?