DAVELEDAVE.RECANTODASLETRAS.COM.BR
Sabemos de nós mesmos pelo olhar do outro. A nossa própria opinião importa pouco. É a partir das informações que os outros nos devolvem que aprendemos se somos elegantes, inteligentes, engraçados, interessantes. A sociedade — como diria Foucault — molda o corpo: observe como você ruboriza em situações de constrangimento. A sociedade se internaliza, inscreve-se na carne, educa o gesto antes mesmo da palavra.
Importante também é a coerência com que nos apresentamos à sociedade. Veja bem: eu não tenho redes sociais. Escrevo em um site de literatura e sequer me dou ao trabalho de divulgá-lo, justamente para preservar minha liberdade autoral. Apenas um amigo de infância — e vocês, claro — sabem disso.
Sim, existe o meu Instagram. Mas ele funciona apenas como instrumento privado: para me motivar, seguir perfis que me inspiram e registrar minha evolução. Também serve como um arquivo silencioso de imagens e dos filmes que amo. E só. Ninguém o conhece — nem mesmo meus amigos. Por isso, inclusive, utilizei VPN e um e-mail alternativo. Se você o conhece, é porque fiz uma exceção muito, mas muito grande. Ou simplesmente falei demais. Mas o que posso fazer se sou curioso e não disponho de outro perfil?
Por não ter seguidores — afinal, não divulgo — é óbvio que o perfil não transmite credibilidade. Ou, ao menos, seria de se esperar que não.
Mesmo assim, quem interage comigo, curte meus reels e, ouso dizer, vê minhas fotos, são quase exclusivamente mulheres. E, pelo que percebo, mulheres muito bonitas.
Além disso, quando interajo — mesmo sem qualquer capital de visibilidade — pessoas conhecidas quase sempre respondem ou curtem. Talvez porque eu comente coisas espirituosas e fora do banal. Talvez porque reconheçam um estilo. Paulo Muzy, Zé Roberto, Felipe Tito, Sandra Chayo, Eslen Delanogare — muitos respondem, alguns até por DM. Outros, ainda menos conhecidos, chegam a conversar comigo: André Barcinski, Flávio Ricardo Vassoler… sobre cinema, cultura, música, às vezes até futebol.

Para mim, o uso que faço do Instagram me atende perfeitamente. Não desejo mais do que isso.
Mas pense assim: imagine se eu utilizasse esse mesmo perfil como um Tinder — ou o transpusesse integralmente para um aplicativo de relacionamento. Todas as minhas fotos, minha BIO rs, meus filmes, um link para meu site, tudo condensado em um espaço pensado para o desejo.
Posso afirmar, com segurança, que com vinte por cento de esforço não me seria difícil acumular um número retumbante de “contatinhos”. O domínio da linguagem também ajuda, convenhamos.
Mas não. Estou escrevendo aqui para vocês, em certos períodos, mas sobretudo para mim — e para uma pessoa especial que espero que esteja lendo isto. Só a leitura dela já seria remuneração suficiente. É claro que, se ela não lesse, nada mudaria objetivamente — embora eu ficasse triste, e minha criatividade certamente diminuísse. Isso, claro, presumindo que ela leia — ou mesmo, que um dia já tenha lido.
O que não muda, contudo, é a fidelidade aos meus valores. Não migrarei para o Tinder nem passarei a investir nessas belas mulheres que interagem comigo — apesar de, às vezes, sentir muita, muita vontade.
E são perfis verificados, veja bem.