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Esta página existe, hoje, para falar de mim mesmo.
Portanto, falarei de mim. E afirmo desde já: tudo o que digo aqui é verdadeiro, sincero, e parte das melhores intenções — ainda que isso, por si só, não garanta absolvição alguma.
Digo algo simples, direto e absolutamente honesto: eu não saberia viver exclusivamente da vida, do sucesso ou da sombra de outra pessoa.
Dizem que o sonho de algumas mulheres — talvez inspirado em Bonequinha de Luxo — é casar-se com alguém rico o suficiente para jamais precisar trabalhar. Não julgo o desejo; apenas reconheço que ele revela uma certa concepção de vida. Eu prefiro não acreditar nisso.
Tomemos um exemplo concreto: Joesley Batista, que se casou com a jornalista Ticiana Villa-Lobos, oriunda de família tradicional do Nordeste. Joesley herdou dos pais um frigorífico modesto e transformou-o em um império do agronegócio — o maior produtor de proteína animal do país, com influência suficiente para ser alçado à condição de mediador informal em relações internacionais sensíveis, como os EUA de Trump com a Venezuela de Maduro.
É evidente que há ali talento para os negócios e para o jogo de relações. Também é evidente, pelas acusações, delações e investigações, que boa parte dessa fortuna foi construída por meios moralmente questionáveis. No Brasil, convenhamos, há setores nos quais não se sobrevive sem algum grau de corrupção — embora existam, sim, pessoas que enriquecem honestamente.
A riqueza, contudo, pouco tem a ver com espírito, cultura ou inteligência no sentido pleno. Não se pode ser completamente tolo e enriquecer dessa forma — isso é verdade —, mas compreender dinheiro não equivale a compreender linguagem, arte, pensamento ou mundo.
Se você me perguntar se, do ponto de vista de Ticiana, casar-se com Joesley foi um bom negócio, a resposta é óbvia: melhor do que ganhar na Mega-Sena todos os anos. Mas, para mim, isso seria pouco. Seria viver eternamente diminuído, condenado à condição de apêndice, sempre à sombra do sucesso de um outro — de um marido, de um homem, de alguém cuja grandeza é estritamente financeira.
Há algo de profundamente deprimente em ver um bilionário — como mostram as delações da Polícia Federal — falando com naturalidade de “dois bilhão”, “três bilhão”, enquanto mal domina a gramática, a linguagem ou qualquer dimensão mais elevada do espírito. Ele entende de dinheiro e de negócios; de cultura, não o chamem.
O dinheiro compra muita coisa, mas não compra conteúdo. Compra poder, mas não compra distinção. Compra bens materiais, mas não compra saúde, nem sabedoria — muito menos felicidade. Compra educação formal, mas não compra erudição, inteligência refinada ou sensibilidade.
Na verdade, dinheiro não compra nada do que realmente importa.
Sinceramente, eu esperava de uma mulher inteligente, bonita e bem-nascida como Ticiana — que tinha carreira própria — algo além de viver à sombra de um marido bilionário, corrupto, ainda que poderoso.
Ao vê-la declarar, em entrevista, que possui um cartão ilimitado e que “não abusa”, exibindo um certo contentamento com essa afirmação, confesso: senti ojeriza. A mesma ojeriza que me causa vê-los frequentando sex shops. Nesse sentido, todos sabem da minha aversão à Virgínia e a tudo o que ela representa.
Mas, apesar de tudo, ela é mais mulher justamente porque não necessita de um homem — ao contrário de Ticiane, que, mesmo não precisando, se relega.
No fundo, o que nos torna humanos não é a capacidade de lidar com dinheiro, mas com cultura, linguagem, arte, pensamento.
Se vendemos nossa humanidade para adquirir dinheiro, o que nos sobra?