DAVELEDAVE.RECANTODASLETRAS.COM.BR
Não me considero um esquerdista. Se há algo no meu pensamento que por vezes soa assim, isso se deve menos a uma adesão ideológica e mais à influência decisiva dos meus "mestres". Confesso que isso me diverte — e, em certa medida, também me surpreende.
O que orienta meu modo de ver o mundo está mais próximo de uma aristocracia radical — não no sentido social ou econômico, mas no sentido do gosto, da distinção e da altivez interior. Uma aristocracia que Nietzsche compreendeu melhor do que ninguém: aquela que não se herda, não se compra e não se ostenta. Ela se encarna.
Para Nietzsche, a verdadeira nobreza não depende de posses, sobrenomes ou vantagens genéticas, mas de espírito. Nobre é quem nasce com uma disposição rara para a elevação, para o rigor consigo mesmo, para a delicadeza do juízo. Dois milhões nas mãos de alguém sem espírito não equivalem a dois mil nas mãos de quem transborda inteligência, ironia e sensibilidade. O valor não está na cifra, mas em quem a sustenta.
Os dândis — esses últimos resistentes a uma era que banalizou tudo — construíram sua reputação exatamente aí: na arte de fazer da própria vida uma forma, de transformar o gesto, o gosto e a atitude em distinção. Se tenho alguma filiação, é essa. Não por nostalgia, mas por exigência.
É menos uma posição política e mais uma ética do espírito.
Sou profundamente atravessado pela tradição francesa pós-moderna — Foucault, Deleuze, Bourdieu — e isso, naturalmente, reverbera no modo como penso o mundo e a mim mesmo. Trata-se de uma epistemologia materialista, atenta aos corpos, às práticas, às relações de poder e às formas sutis de produção do sujeito.
Em Deleuze, por exemplo, há uma definição de “esquerda” que não é ideológica no sentido vulgar, mas ética e sensível. Ele propõe algo como um círculo em gradiente — quase à maneira dos círculos do Inferno de Dante. Quanto mais nos afastamos do centro fechado e opaco, mais nos tornamos capazes de perceber o outro.
Na borda mais aberta desse círculo está a consciência: a percepção de que não posso me alimentar em excesso sem lembrar que, ao mesmo tempo, alguém passa fome; de que não faz sentido desejar um objeto apenas como símbolo de status quando tantos sequer têm acesso ao básico; de que ler confortavelmente exige lembrar dos que não têm sequer um teto; de que cuidar do próprio corpo deveria nos tornar mais atentos àqueles que não dispõem de tempo, recursos ou saúde para fazê-lo.
À medida que nos aproximamos do centro do gradiente, surge o oposto disso: a mesquinhez, a ausência de reflexão, o desejo de controle — muitas vezes patriarcal —, a ganância que se alimenta de si mesma, a facilidade em eliminar uma vida sem lhe conceder sequer a possibilidade de arrependimento. Nesse ponto, diferentemente da tradição cristã mais profunda, que valoriza a ovelha desgarrada que retorna, o que se defende não é o resgate, mas a extirpação.
Daí a conclusão de Deleuze: quanto mais perto do centro alguém se encontra, mais “à direita” está; quanto mais próximo da borda sensível, mais “à esquerda”. Nesse sentido, posso dizer que sou de esquerda — não por rótulo, mas por humanidade.
Mas Deleuze vai além. Ele desloca a própria ideia de homem. Já não se trata do homo natura, definido por uma essência fixa ou por uma relação estática com a natureza, mas do homo historia: alguém que atravessa a natureza e é atravessado por intensidades, que passa por diferentes estados de energia, de potência de existir e de desejo.
É a história — entendida como fluxo — que nomeia essas intensidades e, ao nomeá-las, produz um “eu”. Esse “eu” não é origem, mas efeito. Ele emerge daquilo que produzimos no mundo: obras, gestos, escolhas, formas de vida.
Quando essa produção nasce do desejo — não capturado, não domesticado — ela gera uma recompensa que Deleuze chama de volúpia: um prazer profundo, não moral, não exibicionista, mas vital.
Isso só é possível naquilo que ele chama de “máquina celibatária”: a solidão fértil de quem ainda não teve seu desejo sequestrado pela expectativa social, pelo aplauso ou pela validação externa. Age-se, então, não para ser visto, mas porque há prazer em criar realidade, em expressar o próprio desejo como força produtiva.
É nesse sentido que Deleuze, dialogando com Nietzsche, nos lembra: a vida não é uma sucessão linear de eventos, mas um único acontecimento intenso, condensado. Tudo se manifesta e se dissipa no mesmo gesto — como se o mundo inteiro fosse representado por um único ator, em um único dia solene, fora do calendário comum.
Talvez viver bem seja exatamente isso: sustentar essa intensidade sem traí-la.