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DAVE LE DAVE
SIM, ELE MESMO
Textos

 

A "GAROTA" QUE NÃO TINHA NOME

 


 


 

CONHECER

A Bíblia utiliza a palavra conhecer em um sentido muito específico. Não se trata de informação, nem de familiaridade social. Trata-se de atravessamento, conjugação de almas, para além do sentido carnal. Nesse sentido, seria absurdo afirmar que eu conhecia uma pessoa cujo nome eu sequer sabia, até poucos meses atrás.

 

Conhecer, aqui, não é saber quem é — é ser afetado por aquilo que aparece sem pedir licença.

 


 

A ORIGEM

Tudo começou com um texto. Um texto sobre a letra manuscrita de uma professora do passado. A letra conduziu à memória; a memória às fotografias antigas; as fotografias aos nomes esquecidos. E, como costuma acontecer quando o pensamento ganha tração, um nome puxou outro — até que surgiu a tentativa de encontrar, no Instagram, o nome dessa garota.

 

Não por curiosidade vulgar. Mas porque algumas presenças exigem ser situadas no mundo.

 


 

O ACASO ORGANIZADO

O fato de essa garota que foi trazida a tona pela minha memória trabalhar no supermercado do qual Helena — personagem fictícia que utilizo aqui — é proprietária por vias indiretas, como parte do império de Menelau, é apenas um capricho do destino. Um desses atalhos que a realidade oferece quando quer colaborar com a narrativa.

 

Até então, eu não fazia a menor ideia de seu nome real, apesar de nos cruzarmos com frequência. Mas não é assim com quase todas as pessoas que moram na mesma rua? A repetição do gesto não cria intimidade. Apenas convivência muda.

 


 

O BLOQUEIO

Houve, então, o bloqueio. Algo que compreendo perfeitamente — embora não seja simples aceitar. Vivemos em um mar de banalidades. Quando alguém, finalmente, formula algo espirituoso, algo que escapa do script dos emoticons, e é bloqueado, exige-se uma confiança radical em si mesmo.

 

Porque, como diz Pierrot le Fou, há dias em que só encontramos idiotas — e começamos a desconfiar de nós mesmos. Falo das pessoas em geral, não dela. A vida pouco reflexiva molda cabeças como o vento molda areia: por repetição, não por profundidade.

 


 

BELEZA E ESQUECIMENTO

O mais curioso é que uma pessoa tão bonita — interna e externamente — possa, em algum momento, esquecer-se da própria beleza. Não por ignorância, mas por excesso de ruído. A sociedade elogia com monossílabos, com ícones, com cifras. Raramente com linguagem.

 

E quando tudo vira repetição, até o que é evidente se apaga.

 

Cabe, então, a um estrangeiro lembrar. E tanto melhor se esse estrangeiro tiver bom gosto. Não porque ela desconhecesse sua beleza, mas porque o elogio automático não sustenta memória. Apenas consome.

 


 

MENELAU

Menelau, ao contrário, organiza sua existência a partir da validação social. Segue quase duas mil pessoas — número que, confesso, me espanta: não conheço tantos nomes nem na história. Ela, por sua vez, seguia menos de duzentos. Uma assimetria clara de projetos de vida.

 

Agora imagine o impacto cognitivo de duas mil presenças atravessando diariamente um feed. Imagine o efeito disso sobre o silêncio interior, sobre a capacidade de discernimento, sobre o desejo.

 

Se entre essas duas mil vozes houvesse um Gonçalves Dias, um Byron, ou mesmo um Dave Le Dave, talvez houvesse algum resgate. Mas sabemos que não era esse o caso.

 


 

DESEJO

Poetas (ou alguém que escreve) existem porque, em algum ponto da história — por força interna ou por acaso — não tiveram seu desejo completamente capturado. O capitalismo, claro, odeia isso.

 

Ele prefere converter desejo em engajamento, em métrica, em produtividade, em dinheiro. E sabe remunerar bem quem tem beleza, espírito, lucidez e verbo — desde que tudo isso seja colocado a seu serviço.

 

O problema é o preço.

 

Paga-se caro quando se trabalha para o capital e não para si mesmo. Às vezes com a vida. Às vezes com algo ainda mais grave: a falta dela.

 

A diferença “entre viver” e verdadeiramente “estar vivo” parece tênue. Quando, na verdade, não é.

 

 

 

 

 

 

ESCRITOR DAVE LE DAVE II (OFICIAL)
Enviado por ESCRITOR DAVE LE DAVE II (OFICIAL) em 14/12/2025
Alterado em 14/12/2025
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