
Há, sim, uma mudança clara na forma de se fazer cinema hoje. Antigamente, os cineastas pensavam seus filmes para a tela grande: planos abertos, composição espacial, tempo dilatado, beleza que exigia distância e silêncio. Basta lembrar de Cidadão Kane, de Orson Welles — um filme que pressupõe o corpo inteiro do espectador sentado, imóvel, entregue à escala monumental da imagem.
Hoje, no entanto, o consumo captura tudo. Os cineastas sabem — consciente ou inconscientemente — que seus filmes serão vistos, em sua maioria, em telas pequenas, muitas vezes em celulares. A linguagem responde a isso: planos fechados, closes insistentes, montagens rápidas, ritmo nervoso. O sucesso do Porta dos Fundos, especialmente em esquetes dirigidas por Ian SBF, com seus enquadramentos comprimidos e cortes ágeis, evidencia essa mutação. A contemplação cede espaço ao acontecimento imediato, ainda que em forma de riso. É o mundo moderno editando a própria sensibilidade.
Cheguei a esse insight de forma quase involuntária ao assistir Assassinos da Lua das Flores, o mais recente longa de Martin Scorsese. Se você não associa imediatamente o nome ao rosto, lamento — mas, como tenho bom coração, informo: é o diretor do meme “absolute cinema”, o mesmo de O Lobo de Wall Street, filme que assisti três vezes no cinema quase na mesma semana, tamanha foi minha fascinação. Quando chegou ao streaming, eu voltava cenas específicas como meu sobrinho pede para rever, pela décima vez, o mesmo episódio do Bita, até decorar o que ama.
Felizmente, ainda existem cineastas que resistem. Artistas que continuam fazendo filmes pensando primeiro no cinema, mesmo sabendo que talvez ninguém os veja numa sala escura, em tela grande. Alguns planos desse último Scorsese ainda denunciam esse compromisso com a experiência cinematográfica — e isso merece respeito.
Dito isso, não gostei do filme — e sequer o terminei. A consagração da parceria com Leonardo DiCaprio rendeu obras-primas como O Lobo de Wall Street e A Ilha do Medo, mas também produziu filmes longos, morosos e esquecíveis, como este Assassinos da Lua das Flores, que consegue ser inferior até ao início da parceria em Gangues de Nova York, salvo apenas pela atuação soberba de Daniel Day-Lewis.
É curioso lembrar que Gangues de Nova York foi um projeto de vida de Scorsese desde os anos 1980, só viabilizado financeiramente no século XXI graças à parceria com DiCaprio — que saiu de um artista underground em Gilbert Grape para o símbolo sexual máximo de Titanic.
O tempo, contudo, chega até aos símbolos. O antigo sex symbol agora carrega no rosto uma dureza que denuncia os anos: algo entre o cafajeste arrependido e o bom moço cansado. Ainda assim, meu respeito é total a DiCaprio — um dos poucos que sobreviveu em Hollywood sem se perder, mantendo talento, fama e rigor artístico. Um verdadeiro cinéfilo que, antes de trabalhar com Scorsese, assistiu a toda a sua filmografia e fez questão dessa parceria, salvando — arrisco dizer — momentos importantes da carreira de ambos.
O último filme de Scorsese, porém, denuncia sua idade avançada: lento, disperso, excessivamente longo, como já vinha acontecendo em O Irlandês, que ainda se salva em alguns momentos, mas está longe da glória passada. Aqui cabe uma ressalva fundamental sobre a importância da edição. Para um diretor — ou para alguém que escreve, como eu — é sempre tentador não cortar nada. E é justamente aí que o filme, ou o texto, cresce além do necessário.
New York, New York, grande fracasso de Scorsese, teve na versão do diretor quase quatro horas antes de ser editado. E tenha certeza: este texto também seria muito maior se não fosse a intervenção do meu estagiário boliviano, que trabalha no Vale do Silício, mas que retirei de lá com uma proposta irrecusável de um bilhão de bolívares mensais — o que, em reais, dá exatamente cinquenta e um reais e quarenta e nove centavos por mês.