"NAIVE" (INOCENTE)
DAVELEDAVE.RECANTODASLETRAS.COM.BR
A psicologia usa com frequência a palavra naive: inocente, ingênuo, puro, recém-lançado no mundo. A imagem lembra a música do The Kooks que hoje coloco na capa do site — leve, juvenil, suspensa entre curiosidade e desproteção.
Ser humano nasce com carga genética importante, claro, mas ela não o determina. Ele chega como uma folha em branco, como queria John Locke: uma tábua lisa onde o mundo escreve suas primeiras linhas. A inocência inicial se dilui à medida que a experiência funda sulcos; o calouro vira veterano, o bicho vira adulto, o ingênuo vira alguém capaz de escolher — graças à neuroplasticidade, essa potência silenciosa que expande o cérebro conforme o ambiente o estimula.
Rousseau dizia que o homem nasce bom e a sociedade o corrompe. O enunciado é extremo, mas ilumina algo essencial: para o bem ou para o mal, o ambiente nos atravessa.
Crianças, sobretudo, são esponjas. Aprendem por cópia, por convivência, por afeto. A neuroplasticidade intuitiva — aquela que opera sem consciência — dura até cerca de 25 anos. Depois disso, aprender exige intenção: estudar um novo idioma, dominar um instrumento, mudar hábitos, substituir vícios antigos. A plasticidade continua viva, mas agora precisa de vontade.
Imagina se uma criança crescesse descobrindo que, sem esforço aparente, sabe música, toca diversos instrumentos, fala frânces, espanhol e inglês, tem repertório, disciplina e curiosidade — tudo porque conviveu com pais que investiram, praticaram, modelaram? Ela agradeceria por toda a vida.
E se os pais comem bem, leem, se exercitam, mantêm ambiente saudável e afetuoso, é praticamente impossível que a criança não absorva, por osmose, cópia e hábito, padrões que definirão seu destino. Um dos meus maiores arrependimentos foi ter me matriculado na Aliança Francesa e não ter dado continuidade, porque coincidiu com o período em que saí da empresa. Agora será bem mais difícil aprender, mas imagina assistir aos filmes que amo sem legenda, ler Balzac, Proust, Stendhal no original? Não há dinheiro que pague. E alguns pais podem proporcionar isso aos filhos logo em tenra idade.
O inverso também é verdadeiro — e mais comum do que gostaríamos.
Gosto de pensar nisso como um RPG. Em Undertale (o jogo da determinação), você começa ingênuo e logo precisa escolher sua rota: pacifista (não eliminar ninguém), neutra (meio-termo), ou genocida (matar cada inimigo).
A mudança é radical: na rota pacifista todos sorriem, a música é leve, há riso e dança; na neutra tudo permanece morno; na genocida as casas se fecham, a trilha sonora escurece, e até a paisagem parece temer você.
Será tão diferente na vida?
No Xbox, o clássico Fable leva isso ao extremo: suas ações moldam não só sua reputação, mas seu corpo. Más escolhas fazem nascer chifres; boas ações irradiam uma aura luminosa.
Cuidar do corpo, da mente, dos gestos — tudo isso também se torna visível, mesmo quando ninguém aplaude.
Na vida real, o trabalho mais decisivo é silencioso.
Ninguém vê seus treinos.
Ninguém observa suas renúncias.
Ninguém testemunha a disciplina quando o mundo dorme.
Alguns até se ressentem: sua disciplina desperta nelas a memória do que não fazem.
E o destino, indiferente, pode ser injusto: tragédias atingem inocentes, o esforço nem sempre recebe retorno imediato, e a vida não premia mérito de modo proporcional.
Mesmo assim, algo acontece.
O trabalho escondido molda feições, postura, movimentos. Reflete-se na aura, na presença, na serenidade que você nem percebe carregar.
E quando a recompensa chega — material ou não — ela vem como consciência tranquila, vigor interno, bem-estar profundo.
É o tipo de vitória que ninguém tira, porque nasce dentro.
Seguimos ingênuos até o momento em que entendemos que cada escolha, repetida, esculpe quem nos tornamos.
A inocência é o ponto de partida.
A determinação é o destino.
E todo o caminho entre um e outro é feito de microdecisões que ninguém vê, mas que definem absolutamente tudo.