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DAVE LE DAVE
SIM, ELE MESMO
Textos

 

O “HOMEM” QUE PARECE “HOMEM”. MAS É SÓ “SABOR HOMEM”.

 


 

DAVELEDAVE.RECANTODASLETRAS.COM.BR

 


 

O "SABOR HOMEM"

Todo mundo lembra daquele episódio do Chaves — o refresco que é de "laranja mas parece de limão, mas tem sabor de tamarindo”; que “cheira a abacaxi, mas tem gosto de groselha”. A lógica absurda faz sentido porque é universal: parece uma coisa… mas é outra.

 

Hoje, isso virou a categoria dominante da masculinidade contemporânea.

 

— Olha, que homem interessante! Fotógrafo, tatuado, beleza hipnótica…

Não. Apenas “sabor de interessante”.

 

— Ele vive postando Clarice Lispector, fotos lendo livros… é tão inteligente!

Não. Só “sabor de inteligência”.

 

— Marombeiro disciplinado, saudável, lifestyle admirável!

Não. “Sabor de saúde”: por trás, anabolizantes, estimulantes, canetinhas, Ozempic — o rótulo nunca conta o conteúdo.

 

— Olha como ele cita Nietzsche, conhece música, parece tão culto!

Não. “Sabor de cult”. Viu um vídeo de 15 minutos; não entendeu uma linha do Zaratustra, mas achou “cool” postar frases cujo sentido desconhece. “Sabor homem”.

 

— Fã de música raiz, hein? Camiseta dos Ramones, paga 800 reais de pista no Oasis, posta Doors, Legião, Engenheiros… até Caetano porque é sensível e poético. E em vinil, claro!

Não. Só “sabor de fã de música”.

Não sabe a letra, não sabe o contexto, não conhece a história — só pose curada para parecer profundo.

 

— Torcedor raiz do Palmeiras! Lota estádio, defende piamente gestão, jogadores e treinador, paga caro no ingresso, respira futebol!

Não. Só “sabor de torcedor”.

Não sabe o time de 2012, não cita um jogador da década de 80, não conhece a história, não sabe quantos títulos temos — só barulho sem memória.

 

— O cinéfilo cult: camiseta “written and directed by Tarantino”, como se o cinema tivesse começado em Pulp Fiction e acabado ali.


Não. Só “sabor de cinéfilo”.
Não sabe o que foi a Nova Hollywood, não entende quem Tarantino se inspirou, a quem homenageou, o que remixou — repete frases sem contexto, como se citação fosse conhecimento.

 

E tem o “sabor homem bom”. Esse é o mais perigoso.

Provedor, trabalhador, exemplar — mas incapaz de presença afetiva.

Esquece dos filhos, negligencia a mulher.

Não sabe elogiar, amar, ver o que tem do lado.

Tenta comprar o afeto que não sabe oferecer com viagens, presentes, restaurantes —

como quem compra refresco achando que o sabor justifica a mentira.

 

No fim, o “sabor homem” tem tanta essência quanto o suco Tang tem de fruta;
quanto a bala sabor Coca-Cola  tem, de fato, da própria Coca-Cola, sequer lembre apenas o aroma.
A paixão é artificial. A identidade, sintética.

É o mesmo refresco do Chaves:
parece uma coisa, tem gosto de outra  —

 

O que se parece “HOMEM” é só “SABOR HOMEM”.


 

 

 

 

 

ESCRITOR DAVE LE DAVE II (OFICIAL)
Enviado por ESCRITOR DAVE LE DAVE II (OFICIAL) em 06/12/2025
Alterado em 06/12/2025
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