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Todo mundo lembra daquele episódio do Chaves — o refresco que é de "laranja mas parece de limão, mas tem sabor de tamarindo”; que “cheira a abacaxi, mas tem gosto de groselha”. A lógica absurda faz sentido porque é universal: parece uma coisa… mas é outra.
Hoje, isso virou a categoria dominante da masculinidade contemporânea.
— Olha, que homem interessante! Fotógrafo, tatuado, beleza hipnótica…
Não. Apenas “sabor de interessante”.
— Ele vive postando Clarice Lispector, fotos lendo livros… é tão inteligente!
Não. Só “sabor de inteligência”.
— Marombeiro disciplinado, saudável, lifestyle admirável!
Não. “Sabor de saúde”: por trás, anabolizantes, estimulantes, canetinhas, Ozempic — o rótulo nunca conta o conteúdo.
— Olha como ele cita Nietzsche, conhece música, parece tão culto!
Não. “Sabor de cult”. Viu um vídeo de 15 minutos; não entendeu uma linha do Zaratustra, mas achou “cool” postar frases cujo sentido desconhece. “Sabor homem”.
— Fã de música raiz, hein? Camiseta dos Ramones, paga 800 reais de pista no Oasis, posta Doors, Legião, Engenheiros… até Caetano porque é sensível e poético. E em vinil, claro!
Não. Só “sabor de fã de música”.
Não sabe a letra, não sabe o contexto, não conhece a história — só pose curada para parecer profundo.
— Torcedor raiz do Palmeiras! Lota estádio, defende piamente gestão, jogadores e treinador, paga caro no ingresso, respira futebol!
Não. Só “sabor de torcedor”.
Não sabe o time de 2012, não cita um jogador da década de 80, não conhece a história, não sabe quantos títulos temos — só barulho sem memória.
— O cinéfilo cult: camiseta “written and directed by Tarantino”, como se o cinema tivesse começado em Pulp Fiction e acabado ali.
Não. Só “sabor de cinéfilo”.
Não sabe o que foi a Nova Hollywood, não entende quem Tarantino se inspirou, a quem homenageou, o que remixou — repete frases sem contexto, como se citação fosse conhecimento.
E tem o “sabor homem bom”. Esse é o mais perigoso.
Provedor, trabalhador, exemplar — mas incapaz de presença afetiva.
Esquece dos filhos, negligencia a mulher.
Não sabe elogiar, amar, ver o que tem do lado.
Tenta comprar o afeto que não sabe oferecer com viagens, presentes, restaurantes —
como quem compra refresco achando que o sabor justifica a mentira.
No fim, o “sabor homem” tem tanta essência quanto o suco Tang tem de fruta;
quanto a bala sabor Coca-Cola tem, de fato, da própria Coca-Cola, sequer lembre apenas o aroma.
A paixão é artificial. A identidade, sintética.
É o mesmo refresco do Chaves:
parece uma coisa, tem gosto de outra —
O que se parece “HOMEM” é só “SABOR HOMEM”.