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DAVE LE DAVE
SIM, ELE MESMO
Textos

 

"LITERATURA EM PERIGO" EM TEMPOS DE "TIKTOK"

 


 

 

DAVELEDAVE.RECANTODASLETRAS.COM.BR

 


 

INFÂNCIA, NEUROPLASTICIDADE E CULTURA

A literatura corre perigo, e para falar do meu amor por ela preciso começar com bebês e crianças. Nessa fase, a neuroplasticidade — a capacidade do cérebro de crescer com o esforço, como um músculo — está no auge. Por isso crianças são verdadeiras esponjas: aprendem a falar, andar e absorvem idiomas estrangeiros sem sotaque. Mas o aprendizado das crianças nasce do ambiente: elas imitam o que está à sua volta.

 

Você não verá uma criança pedindo salada espontaneamente; verá uma criança se enchendo de alimentos hiperpalatáveis se seus pais forem sedentários e obesos. Elas falarão palavrões e serão agressivas se esse for o ambiente — ou serão doces e carinhosas se receberem estímulos de afeto. Não há mistério: há influência, há exemplo, há habitus.

 


 

TODOROV: A BIBLIOTECA COMO REFÚGIO

É aí que surge o paralelo com a vida de Tzvetan Todorov, intelectual búlgaro que, em 2007, publicou Literatura em Perigo, mostrando como ela vem sendo escanteada — como Woody em Toy Story substituído por Buzz. Mas aqui o que substitui não é melhor: é superficial, rápido, descartável — TikTok, shorts, fast-content.

 

Todorov conta que cresceu cercado de livros porque seus pais faziam parte da intelligentsia russa e foram obrigados ao exílio por serem considerados subversivos ao regime comunista. Ele via seus pais lendo, e aquele olhar de fascinação do menino diante da biblioteca se misturava ao orgulho silencioso dos pais quando ele, ainda criança, folheava um volume. Esse é o ambiente que forma: quando os pais dizem “olha lá, que bonitinho” — e reforçam um gesto que se tornará destino. Não por acaso, ele se tornou um dos intelectuais mais brilhantes da nossa época.

 


 

HABITUS, DAWKINS E O MEME MAL-COMPREENDIDO

Pierre Bourdieu, sociólogo francês, explica que somos moldados inconscientemente pelo ambiente, chamando isso de habitus. É o efeito tribo: torcedores falando igual, advogados falando juridiquês, grupos repetindo comportamentos sem perceber. É também o conceito original de “meme” de Richard Dawkins — não piada tola de internet, mas reprodução cultural profunda.

 

O habitus faz com que a criança copie os pais, impulsionada pela neuroplasticidade. A criança não herda apenas dinheiro: herda capital cultural. E, como dizia Bourdieu, é o capital cultural que mais distingue os seres humanos. O financeiro compra o cultural: escolas melhores, professores melhores, estímulos ao intelecto.

 


 

O HABITUS BRASILEIRO: O CELULAR COMO CHUPETA

No Brasil, o habitus que as crianças herdam hoje é outro. Pais calam o choro do bebê com celular, com gritos, com televisão — e isso se reflete no futuro. Não é surpresa que os livros mais vendidos aqui sejam de colorir para adultos, romances água com açúcar, manuais prometendo dez lições milagrosas para o sucesso. A literatura é tratada como inutilidade.

 

Até os “influenciadores” de livros, que deveriam oferecer curadoria fina, empurram romances pasteurizados, incapazes de ampliar horizonte.

 


 

A PROMESSA DA LITERATURA

No livro de Todorov, a passagem mais bela é a que mostra como a literatura amplia nosso horizonte. Quem não lê vive apenas uma vida; quem lê, vive várias.

 

Deleuze dizia que, ao lermos, adquirimos o pathos do personagem; que a magia não está nas linhas, mas entre as linhas — na subjetividade do autor encontrando a do leitor. Quando lemos Vidas Secas ou Grande Sertão: Veredas, adquirimos esse pathos sertanejo, essa visão do mundo árida, poética e trágica.

 

Quando lemos Mil e Uma Noites, vemos Sherazade — silenciosamente subversiva — vencendo um sistema de homens com audácia e imaginação.

 

Eu aprendo mais psicologia com literatura do que com livros técnicos. Nietzsche dizia que Stendhal e Dostoiévski foram os primeiros psicólogos da história.

 

Essa capacidade de vislumbrar mundos vem desde Hesíodo e Homero, passa por Sófocles, Eurípedes, Ésquilo, por Virgílio, Horácio e Ovídio; chega a Cervantes, Saramago, Machado de Assis.

 


 

LER É VIAJAR SEM SAIR DE CASA

Ler é viajar sem sair de casa. É ampliar o horizonte, o repertório, a imaginação e, sobretudo, a sensibilidade.

 

Quem não lê vive uma só vida.

Quem lê vive muitas — e cada uma delas salva um pedaço da nossa humanidade.

 

 

 

 

 

ESCRITOR DAVE LE DAVE II (OFICIAL)
Enviado por ESCRITOR DAVE LE DAVE II (OFICIAL) em 05/12/2025
Alterado em 05/12/2025
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