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Dizem — e o poeta provoca — que todas as cartas de amor são ridículas. Se não fossem ridículas, não seriam cartas de amor. Tomo isso como desafio e até ofensa pessoal, porque a maior parte do que escrevo toca justamente esse território: amor, afetos e sentimentos.
Mas o ridículo não está no conteúdo. Está na forma. O difícil não é falar de amor; é falar de amor sem cair no melado, no piegas, no melodrama. E, nesse ponto, talvez eu seja bem-sucedido em resistir aos excessos de linguagem, sem perder a intensidade.
Existe também a limitação da própria linguagem, incapaz de transmitir com precisão aquilo que sentimos. Minha fórmula tem sido o humor e uma espiritualidade discreta: acrescento intenção, pensamento, densidade. Não falo apenas de sentimentos; falo do que está além deles — o espírito que atravessa o corpo, o coração que dita, a mente que organiza.
A fronteira é tênue: um passo a mais e vira excesso; um passo a menos e vira frieza. Lembro-me do prazer de um doce. Minha doceria favorita — Bolegria — cuja estética, identidade visual e sabor falam direto ao meu coração, aos meus valores e aos meus sentidos. É tentador se entregar, mas o excesso contradiz meu estilo de vida; exige equilíbrio.
Dentro dos meus propósitos, encaixo um docinho ou outro. Não como fuga, mas como ferramenta. Isso reforça minha determinação, minha adesão à dieta, minha felicidade. Flexibilidade não é fraqueza; é virtude.
O que torna o doce alegria? O equilíbrio. Quando vira hábito nocivo, ele já não adoça: adoece. A mesma substância que trouxe felicidade se torna diabetes, hipertensão. A linha entre doce e vício é a mesma linha entre amor e melancolia exagerada: Tudo depende da medida, como diz o poeta Horácio: Est modus in rebus (Há uma medida nas coisas).
Nosso cérebro não distingue hábito e vício — ocupam o mesmo lugar. A diferença está no efeito: o vício é um hábito que persiste apesar do prejuízo. Já o hábito saudável organiza a vida, estrutura a rotina, dispensa esforço.
Até a compulsão não é necessariamente ruim: se direcionada para estudo, treino, dieta, trabalho, ajuda ao outro, a sociedade celebra. Mas, se for para algo nocivo, a sociedade afasta.
E, veja: pode não parecer, mas falei de amor. Falei de afetos e de sentimentos. Falei de equilíbrio, escolhas, intenções — negando a tese de que toda carta de amor é ridícula. A ridiculariedade só existe quando falta profundidade.
Sem mais perguntas, meritíssimo.