
O cinema — arte mais jovem entre todas e, paradoxalmente, a mais completa — sempre foi minha predileção absoluta. Foi através dele que cheguei a todas as outras.
Um bom filme tem boa trilha sonora: portanto, é música.
Um bom filme possui boa fotografia: portanto, é pintura.
E quando é bem escrito, torna-se literatura.
Se nos faz pensar, entra na esfera da filosofia, da antropologia, da sociologia, da história e da psicologia.
Há, inclusive, na teoria cinematográfica, o mito do cinema total.
E o que seria isso?
O cinema total seria a personificação de todas as artes juntas. É A Lista de Schindler, Touro Indomável, O Labirinto do Fauno, La La Land, Persona — apenas para citar alguns, tão distintos e ainda assim completos.
A cinefilia me levou do cinema mudo dos irmãos Lumière e da imaginação de Méliès em Viagem à Lua, passando pela era de ouro de Hollywood, até o cinema europeu contemporâneo.
E, nesse percurso, vi tantas atrizes luminosas que hoje guardo na memória como se fossem pinturas vivas.
Para mim, Brigitte Bardot, Anna Karina, Sophia Loren — nenhuma delas envelhece.
E não envelhecerá.
Recuso-me a pesquisar seus nomes no Google para não confrontar o rosto envelhecido. Prefiro preservar a ilusão: elas são como nos filmes — eternas, intactas na luz.
Até as mais contemporâneas — Meryl Streep, Michelle Pfeiffer — já começam a ser tocadas pelo tempo. E se o tempo alcança Nicole Kidman… imaginem vocês, mulheres mortais.
Quem consegue imaginar Audrey Hepburn envelhecida? A eterna bonequinha de luxo — a jovem pobre que, usando roupas elegantes e bijuterias, tomava café diante da joalheria mais cara do mundo, sonhando com aquilo que só imaginava obter casando-se.


Mas o filme revela a verdade que dói: felicidade material não é felicidade. A Tiffany’s vende uma bijuteria de felicidade — mesmo quando é ouro puro, em termos emocionais nada tem valor de troca.

E quando Hepburn envelhecesse? Conseguiria um marido rico? Sua aparência continuaria lhe rendendo presentes?
O tempo é implacável com as mulheres.
Talvez alguém leia este texto daqui a trinta anos e pense: “Ele tinha razão.” Talvez veja Barbie e perceba que até Margot Robbie começa a ser marcada pelo tempo.
Com os homens, o tempo costuma ser mais benevolente.
Woody Allen envelheceu ficando menos feio do que antes.
Godard manteve uma elegância discreta até os últimos dias.
Michael Haneke segue como o cineasta da sofisticação e personificação da alta-costura.
Scorsese continua com sobrancelhas expressivas, marcantes — quase um estilo próprio.
O conselho mais antigo de Ovídio, em seu livro sobre o amor, permanece insuperável:
o que mantém o amor é cultivar o espírito.
Ulisses não era bonito nem atlético. Mas sabia falar.
E bastou para que duas deusas — Circe e Calipso — se apaixonassem por ele. E para que Penélope rejeitasse todos os pretendentes, permanecendo ao seu lado em fidelidade silenciosa.
Só fala bem quem pensa bem. Quem tem histórias, repertório, mundo interno.
E, já que o tempo pesa mais sobre vocês, mulheres, esse cultivo se torna ainda mais vital.
Impressiona-me ver casais que passam horas no telefone ou WhatsApp conversando sobre nada. Harvard deveria estudá-los: especialistas em jogar conversa fora, pra nos aprofundarmos mais a fundo sobre a involução do homem.
Mas ainda são melhores do que os casais que não conversam — como em Adeus à Linguagem, de Godard — em que o cão precisa falar pelas palavras que o casal já não consegue dizer um ao outro.
Certa vez, um colega de trabalho me elogiou, e respondi com uma ironia modestamente sincera.
Ele disse: “David… o cara mais culto que conheço.”
Eu respondi: “Então você não deve conhecer muitas pessoas na vida, né?”
Ou talvez eu fosse realmente a única pessoa que ele conhece na vida…
Isso me lembrou o homem que vivia sozinho na lua — mas essa história fica para outro dia.
E como a ansiedade é um dos grandes males contemporâneos, imagino o sofrimento dele quando a lua mudava de fase — especialmente quando minguava, arrastando consigo todas as inquietações do céu.