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DAVE LE DAVE
SIM, ELE MESMO
Textos


O TEMPO É IMPLACÁVEL COM AS MULHERES

 



DAVELEDAVE.RECANTODASLETRAS.COM.BR



O CINEMA COMO PORTA DE TODAS AS ARTES

O cinema — arte mais jovem entre todas e, paradoxalmente, a mais completa — sempre foi minha predileção absoluta. Foi através dele que cheguei a todas as outras.

 

Um bom filme tem boa trilha sonora: portanto, é música.

Um bom filme possui boa fotografia: portanto, é pintura.

E quando é bem escrito, torna-se literatura.

 

Se nos faz pensar, entra na esfera da filosofia, da antropologia, da sociologia, da história e da psicologia.

 

Há, inclusive, na teoria cinematográfica, o mito do cinema total.

E o que seria isso?

 

O cinema total seria a personificação de todas as artes juntas. É A Lista de Schindler, Touro Indomável, O Labirinto do Fauno, La La Land, Persona — apenas para citar alguns, tão distintos e ainda assim completos.

 


 

A ETERNIDADE DAS ATRIZES

A cinefilia me levou do cinema mudo dos irmãos Lumière e da imaginação de Méliès em Viagem à Lua, passando pela era de ouro de Hollywood, até o cinema europeu contemporâneo.

 

E, nesse percurso, vi tantas atrizes luminosas que hoje guardo na memória como se fossem pinturas vivas.

 

Para mim, Brigitte Bardot, Anna Karina, Sophia Loren — nenhuma delas envelhece.

E não envelhecerá.

 

Recuso-me a pesquisar seus nomes no Google para não confrontar o rosto envelhecido. Prefiro preservar a ilusão: elas são como nos filmes — eternas, intactas na luz.

 

Até as mais contemporâneas — Meryl Streep, Michelle Pfeiffer — já começam a ser tocadas pelo tempo. E se o tempo alcança Nicole Kidman… imaginem vocês, mulheres mortais.

 

Quem consegue imaginar Audrey Hepburn envelhecida? A eterna bonequinha de luxo — a jovem pobre que, usando roupas elegantes e bijuterias, tomava café diante da joalheria mais cara do mundo, sonhando com aquilo que só imaginava obter casando-se.

 

 

 

Mas o filme revela a verdade que dói: felicidade material não é felicidade. A Tiffany’s vende uma bijuteria de felicidade — mesmo quando é ouro puro, em termos emocionais nada tem valor de troca.

 

 

E quando Hepburn envelhecesse? Conseguiria um marido rico? Sua aparência continuaria lhe rendendo presentes?

 

O tempo é implacável com as mulheres.

 



O TEMPO E OS HOMENS

Talvez alguém leia este texto daqui a trinta anos e pense: “Ele tinha razão.” Talvez veja Barbie e perceba que até Margot Robbie começa a ser marcada pelo tempo.

 

Com os homens, o tempo costuma ser mais benevolente.

 

Woody Allen envelheceu ficando menos feio do que antes.

Godard manteve uma elegância discreta até os últimos dias.

Michael Haneke segue como o cineasta da sofisticação e personificação da alta-costura.

Scorsese continua com sobrancelhas expressivas, marcantes — quase um estilo próprio.

 



OVIDIO, ULISES E O ESPÍRITO

O conselho mais antigo de Ovídio, em seu livro sobre o amor, permanece insuperável:

o que mantém o amor é cultivar o espírito.

 

Ulisses não era bonito nem atlético. Mas sabia falar.

E bastou para que duas deusas — Circe e Calipso — se apaixonassem por ele. E para que Penélope rejeitasse todos os pretendentes, permanecendo ao seu lado em fidelidade silenciosa.

 

Só fala bem quem pensa bem. Quem tem histórias, repertório, mundo interno.

E, já que o tempo pesa mais sobre vocês, mulheres, esse cultivo se torna ainda mais vital.

 



O DIÁLOGO E O SILÊNCIO

Impressiona-me ver casais que passam horas no telefone ou WhatsApp conversando sobre nada. Harvard deveria estudá-los: especialistas em jogar conversa fora, pra nos aprofundarmos mais a fundo sobre a involução do homem.

 

Mas ainda são melhores do que os casais que não conversam — como em Adeus à Linguagem, de Godard — em que o cão precisa falar pelas palavras que o casal já não consegue dizer um ao outro.

 



O ELOGIO, A LUA E A ANSIEDADE

Certa vez, um colega de trabalho me elogiou, e respondi com uma ironia modestamente sincera.

 

Ele disse: “David… o cara mais culto que conheço.”

Eu respondi: “Então você não deve conhecer muitas pessoas na vida, né?”

 

Ou talvez eu fosse realmente a única pessoa que ele conhece na vida…

 

Isso me lembrou o homem que vivia sozinho na lua — mas essa história fica para outro dia.

 

E como a ansiedade é um dos grandes males contemporâneos, imagino o sofrimento dele quando a lua mudava de fase — especialmente quando minguava, arrastando consigo todas as inquietações do céu.

 

 

 

 

 

 

ESCRITOR DAVE LE DAVE II (OFICIAL)
Enviado por ESCRITOR DAVE LE DAVE II (OFICIAL) em 04/12/2025
Alterado em 04/12/2025
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