DAVELEDAVE.RECANTODASLETRAS.COM.BRA MTV, que um dia foi território de grandes videoclipes e produção de acústicos inesquecíveis, hoje se reduz a reality shows de troca de casais e performances sentimentais ensaiadas para parecerem espontâneas. O amor transformado em espetáculo. O íntimo transformado em conteúdo.
Eu, por minha vez, sempre soube que uma coisa que nunca me verão fazer é fofoca. Quem fala dos outros denuncia, sem perceber, um certo vazio de acontecimentos na própria vida — um deserto que tenta preencher com a vida alheia. Prefiro falar das minhas paixões, dos meus hobbies, das minhas inquietações filosóficas, do debate público, e jamais do privado alheio. E mesmo quando falo de mim, faço com discrição, preservando identidades, como quem guarda um sussurro no escuro.
Escrevo metaforicamente sobre o que é real — mas apenas quando diz respeito a mim. É o meu modo de tentar me entender através do olhar dos outros. Ninguém vive sozinho: compreender o próximo, especialmente o sexo oposto, é essencial no meu processo de autoconhecimento.
Mas se eu revelasse ou prejudicasse alguém, estaria violando minha própria regra. Não o faço. Nunca o fiz. Só que o mundo externo é indomável. Às vezes os assuntos escapam ao meu controle, e isso ocorre porque outras pessoas, por motivações próprias, decidem falar. Nesse ponto, já não é comigo.
Eu tomo todas as precauções. Quem se identifica nos meus textos são apenas aqueles que se reconhecem neles — presumindo que, por acaso, irão lê-los. Posso jurar: não obrigo ninguém a me ler. Chegam por curiosidade, acaso ou destino.
Nem amigos, nem minha família sabem o que escrevo. O que fica claro pelo teor do íntimo do que compartilho. Revelar seria perder a liberdade ao meu contéudo. Não divulgo nada para ninguém. Os únicos que sabem são os recantistas e aqueles que, por curiosidade, clicam no link do meu Instagram — criado apenas para registrar minha evolução, para me auto-observar, não para interagir. E quando interajo, é com toda a liturgia das redes, com elegância e intenção ilibata,
Não fico curtindo fotos de meninas de biquíni; não mando 🔥; não transformo admiração em performatividade. Quando elogio, é porque algo verdadeiro me inspirou. Se eu estivesse procurando relacionamento, estaria no Tinder — não no Recanto. Quando o instagram me sugere sexualização, clico em não tenho interesse. Pra mim, o algoritmo só exibe esse tipo de conteúdo:

A verdade é simples: gosto da sensação de ser observado não por um público, mas por alguém específico. Essa pessoa simbólica, silenciosa, discreta. É ali que minha escrita encontra sua recompensa. Se eu pudesse, deixaria meu Recanto privado e disponível só pra ela, assim saberia exatamente quando ela pensou em mim, se me visitasse, dessa a honra do seus lindos olhos percorrendo as letras que escrevo.
No esporte, alguns pilotos têm uma Ferrari nas mãos e não sabem conduzi-la. Não valorizam o que possuem. Algumas mulheres também são Ferraris: raras, potentes, únicas — mas por pudor ou baixa estima, escolhem cobrir o próprio brilho.
Eu tento revelar à Ferrari o motivo de ela ser uma Ferrari. Não para conduzi-la, mas para que ela própria reconheça o valor que carrega e exiba esse valor com consciência.
Para mim, é mais precioso ver o brilho do prazer no olhar de uma mulher — aquele inconfundível olhar de quem se sabe intensamente desejada por quem ela admira — do que meu próprio prazer. Porque o corpo não mente. O desejo é líquido, úmido, anterior ao pensamento. Ele nos denuncia antes que possamos organizar a frase.
E o que os reality shows de troca de casais têm a ver com tudo isso?
Se a ex (inexistente) — mas sobre quem já escrevi — trocasse de lugar (casal) com aquela que me inspira hoje, ironicamente receberia exatamente aquilo que sempre buscou (quer dizer, o seu meio social), e que nos afastou para sempre. Mas a ironia maior é que, mesmo assim, tenho certeza que ela mesma não se sentiria feliz. Talvez continuasse, secretamente, a me ler.
E quem me inspira hoje? Encontra-se, hoje, mais feliz por ter aquilo que a pessoa do passado tanto queria socialmente — ainda que perdesse aquilo que realmente a faz feliz? (Parece meio uma passagem de Lewis Carroll, em Alice, mas espero que tenha ficado claro)
É um experimento mental. Uma hipótese absurda. Um enquadramento cinematográfico que serve apenas para revelar luz e sombra.
Eu estou mais feliz agora. Reconheço o passado com gratidão. Aceito a ausência — tanto a antiga quanto a presente — como parte da minha disciplina emocional.
O que não posso controlar — sentimentos e ações dos outros — deixo nas mãos do destino. O futuro a Deus pertence. Se Ele me reserva algo melhor ou apenas diferente, recebo com alegria. Fui fiel a mim mesmo, aos meus sentidos, convicções, ao que é justo dentro de mim.
E acima de tudo, fico satisfeito em saber que meus escritos, minha página, meu cuidado comigo mesmo, minha elegância e minha capacidade de criar não permaneceram iguais — melhoraram. Evoluíram. E essa evolução também se deve à pessoa que me inspira hoje.