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Jean-Luc Godard tem um filme chamado Duas ou Três Coisas que Eu Sei Delas, em que usa a história de duas mulheres para falar de seu amor pela França — e, ao mesmo tempo, para criticá-la.
Eu gosto do filme, embora não o considere entre os melhores. O que sempre me impressionou, porém, é notar como o auge da arte de Godard coincidiu com seu relacionamento com Anna Karina. É nítido, para mim, que o amor pode ser uma força estética: depois que terminaram, seu cinema entrou ladeira abaixo, mergulhou no Dziga Vertov Group, na fase militante, até o último suspiro poético que lembrava o seu À Bout de Souffle. Aliás, título que — não por acaso — denunciava o que ele via como o “último fôlego” do cinema francês pré-Nouvelle Vague.
E, como se não bastasse a tradução brasileira transformar o “último suspiro” em “Acossado”, Godard só reencontraria certo brilho nos anos 80, talvez quando voltou a amar.
O curioso é que isso vale para homens e mulheres.
Clarice Falcão fez o Monomania enquanto namorava Gregório; e Gregório escreveu alguns dos melhores esquetes naquele mesmo período.
Tom Brady, por sua vez — eufemizado aqui no Brasil como “o ex-marido da Gisele Bündchen” — ganhou sete anéis da NFL. Será que teria chegado tão longe sem aquela mulher ao lado?
Há mulheres tão especiais que transformam um homem em extraordinário. Elas inspiram. Fazem o impossível parecer doméstico.
E agora, ao contrário de Godard, eu falo — com meu olhar amoroso, não crítico — de duas ou três coisas que eu amo nela. Ou talvez cinco. Ou sete. A verdade é que, como Godard diante de Paris, eu a observo de longe, mas ao contrário dele, só encontro elogios.
Se ela jogasse o bingo do meu modelo de mulher ideal, completaria todas as fileiras:
educada, sempre arrumada, maquiagem leve, nada em excesso.
Na academia, vive aquele equilíbrio raro: sabe das próprias formas exuberantes, mas prefere ocultá-las com pudor — ou talvez guardá-las para quem mereça vê-la em pleno esplendor.
É uma mulher que sabe que é bonita, mas talvez não tenha plena consciência do efeito que causa.
Eu sempre a observava com admiração discreta: a postura altiva, o nariz levemente erguido, a confiança tranquila.
Mas bastava alguém falar com ela para a voz se tornar gentil e doce — um reflexo da bondade que, mesmo de passagem, ela deixava transparecer.
Era como se a própria presença dela reverberasse em mim antes mesmo de eu nomear qualquer sentimento.
Havia ainda aquela estranha sensação quando eu passava por ela: um sorriso involuntário surgia no canto da boca, sereno, incontível — como se eu a conhecesse sem conhecer.
Você sabe: aquele instante em câmera lenta, quando duas pessoas cruzam o mesmo corredor e seus corpos parecem reconhecer alguma química silenciosa.
Mesmo com fones de ouvido, mesmo distraído, há algo no corpo que funciona como um radar para afinidades.
E, sim: eu sempre faço a crítica aos casais que se parecem tanto que parecem irmãos.
Para mim, a beleza entre um homem e uma mulher — como na arte — pede contraste de paleta, diversidade, mistura.
Moreno e branco, alvo e dourado.
Branco com branco com branco alemão é quase um look monocromático.
A natureza é feita de diversidade de cores; a beleza também.
Um casal diferente, mas belo à sua maneira — com gostos semelhantes que nem sabem que têm — me lembra muito mais a estética do mundo do que as versões pálidas e homogêneas de afetos sem contraste.
Bom, talvez eu não tenha dito duas ou três coisas. Talvez tenham sido cinco ou sete.
E se eu a conhecesse de verdade, provavelmente multiplicaria tudo isso.
Mas o mais importante é simples: assim como Anna Karina inspirou Godard, como Clarice inspirou Gregório e vice-versa, assim como Gisele inspirou Brady — ela me inspira também.
Ela consegue tirar o melhor de mim.
E isso, por si só, já seria motivo suficiente para querer tê-la por perto.
Ainda que apenas na distância que nos cabe.