O HOMEM QUE QUERIA SER CHAMADO DE FOFO
DAVELEDAVE.RECANTODASLETRAS.COM.BR
Eu gosto de ser chamado de fofo. Há algo de profundamente terno nesse adjetivo — uma espécie de guarda aberta, de rendição gentil.
Pensa num urso-panda: não importa o tamanho, o que fica é a doçura.
Um cachorrinho? Um unicórnio? A fofura é um idioma do olhar feminino, e talvez por isso eu me sinta confortável dentro dele. Gosto de ser percebido assim, por elas — especialmente pelas que têm humor leve, quase musical.
Os homens, quando querem enfatizar algo, recorrem ao aumentativo: “Davizão”.
As mulheres fazem o contrário: quando estão emocionadas, diminuem — “menininha”, “fofinho”.
É curioso como o masculino tende ao exagero, ao bruto, ao que grita; enquanto o feminino sabe tocar por dentro com uma delicadeza que quase sussurra.
Às vezes penso que, se eu fosse mulher, seria lésbica — mas daquelas bem femininas. Feminilidade é um universo inteiro; masculinidade mal chega a ser um bairro.
Nunca tive um relacionamento sério. Talvez por medo. Talvez por proteção.
Tenho essa natureza mansa, conciliadora, que detesta conflito e encontra beleza em pequenas rotinas.
E, por isso mesmo, sei que, se tivesse amado alguém, seria para a vida toda.
Um relacionamento teria me poupado de certos dissabores — e seria o pretexto perfeito para não precisar olhar para nenhuma outra mulher.
Porque vivo o inverso dos homens casados que querem ser solteiros: eu, solteiro, vivo como solteiro mesmo.
A Bíblia diz: “Quando eu era menino, falava como menino; hoje sou homem…”
Talvez por isso eu ache meio infantilóide esse culto eterno à adolescência: adultos fanáticos por Rebelde, Dragon Ball Z, incapazes de sofisticar o gosto.
Foi especial — claro que foi. Mas passou.
Imagine se eu tivesse ficado preso só em J.K. Rowling e Tolkien? A vida exige novas estantes internas.
E pior: há mulheres que acham esses homens super cool. O mercado afetivo anda estranho.
Tem homem que mal sabe falar como homem, que comem mais o plural do que a própria namorada (desculpe a vulgaridade — a piada era boa demais).
E o ápice: carinho entre amigos dito com xingamento de vocativo.
“E aí, SEU v1@do?”
“Como cê tá, c*zão?”
Eu apenas penso: meu Deos!!! Onde é que nós erramos?
No colégio, eu só queria ser engraçado.
Alguns professores perguntavam aos meus amigos se eu era nerd. Eles respondiam com sinceridade:
“Ele é inteligente, mas não é nerd.”
Sou como meu sobrinho — para quem leu o relatório, já entendeu:
o que me interessa, me atravessa; o que não, simplesmente me abandona.
Sempre rodeado de gente, mas, no final, sempre só.
Mesmo na intimidade, há uma solidão que nunca me larga.
E no final das contas este texto não ficou fofo, nem inteligente, nem engraçado.
Ficou… bonitinho. O feio arrumadinho.
Se você me acha bonitinho — e não gato — nem precisa falar comigo, ok?
Porque se estou arrumado e, ainda assim, sou bonitinho, isso quer dizer que sou feio… mas elegante.
E prefiro “elegante” a “estiloso”.
“Estiloso” parece aquele cara que tenta chamar atenção demais.
Gosto da elegância sóbria, que passa despercebida — até não passar mais.
Uma vez, num aplicativo chinês parecido com o WhatsApp, uma asiática me disse que eu parecia o Adam Levine na fase careca.
Não soube se era ofensa ou elogio — mas ele é sexy, então aceitei.
Ele namorou a tenista Maria Sharapova e reclamou que ela fazia mais barulho jogando do que na cama.
E aí me diferencio dele: querido Levine, talvez a culpa seja sua e não dela. Já pensou nisso?
Texto estranho, né?
Diferente.
Talvez seja a embriaguez do sono.
Ou — quem sabe — a embriaguez do amor.
Báh noite.
That's all, folks.