DAVELEDAVE.RECANTODASLETRAS.COM.BRMuitas vezes quem lê meus textos imagina que sou mais sensível do que a média dos homens. Mas não é que eu sinta mais — é que aprendi a nomear o que sinto. Carrego comigo as ferramentas que o estudo, a prática e a insistência na linguagem me deram: um universo polifônico e semiótico que molda meu repertório cultural, emocional e comportamental. Não sinto mais; apenas expresso melhor.
O pensamento é feito de linguagem. Quando a linguagem nos falta, falta-nos também a capacidade de pensar, de organizar o afeto, de traduzir o indizível. Mesmo os sentimentos mais profundos — talvez especialmente esses — excedem as palavras. E ainda assim dependemos delas. A linguagem nunca alcança totalmente a vibração íntima do que sentimos, mas é tudo o que temos.
Balzac escreveu que o amor nas camadas pobres seria uma “orgia de plebeu”. Não concordo. O que existe é que a pobreza material quase sempre vem acompanhada da pobreza de espírito — não por culpa moral, mas por desnutrição simbólica. Falta tempo, falta estímulo, falta mundo. E onde não há mundo, não há palavras suficientes para dizer o que se sente.
Assim, muitos não conseguem expressar o próprio amor. Amam sem ter como enunciar. Sentem mais do que aquilo que conseguem dizer — e isso é uma violência silenciosa.
As redes sociais ampliam essa falta: transformam a linguagem em ícone, o sentimento em emoticon, o gesto em reação. Tomam-nos a possibilidade do símbolo e devolvem-nos um catálogo de carinhas.
Quem ainda tem condições materiais mostra afeto não com palavras — às vezes nem com ações — mas com presentes. Uma substituição do vínculo pela mercadoria. É a desapropriação da linguagem transformada em forma sutil de violência emocional.
Até a escolha do parceiro, dos amigos e de quem deixamos entrar em nosso mundo pode ser uma forma velada de violência. Não porque um indivíduo seja culpado, mas porque a sociedade inteira é violenta: agride nossa capacidade de comunicar, de pensar, de desejar com profundidade.
Pela linguagem do outro — ou pela sua ausência — percebemos:
simplicidade excessiva;
previsibilidade no pensar;
afetividade rasa;
ausência de profundidade erótica;
rotina sem mistério;
falta de intelectividade às coisas do espírito.
Nada disso é culpa de um ou de outro. É reflexo de um mundo que esvazia o espírito e barateia a alma.
A escolha de um parceiro revela mais sobre alguém do que qualquer postagem. Quando observamos isso honestamente, vemos: o estilo dele, o corpo dele, a visão de mundo dele dizem quem a pessoa é — não o que imaginamos que seja.
O amor, hoje, muitas vezes chega filtrado por essa violência estrutural e objetiva: escolhemos a partir da falta de linguagem, da falta de mundo, da falta de espírito. Como se a sociedade nos empurrasse um modo empobrecido de amar — agressivo na forma, suave na aparência.
E ainda assim chamamos isso de afeto.