DAVELEDAVE.RECANTODASLETRAS.COM.BRNão dá para falar do presente sem, antes, atravessar a sombra luminosa do passado. E, não... não é para me reaproximar dele, antes o contrário: deixá-lo para trás, na lembrança.
E para as leitoras novas — que talvez se perguntem quem é essa figura misteriosa, essa quase lenda que ronda meus textos — deixo aqui uma verdade simples: algumas duvidam da existência dela, acham que é fruto da minha verve artística, uma musa inventada pela minha criatividade.
Mas antes fosse. Nem eu seria tão criativo assim.
Se você está me lendo aqui, hoje, é por causa dela. Você provavelmente nunca tinha ouvido falar do Recanto das Letras — eu também não. Mas foi por causa dela que descobri este lugar, este canto literário onde a minha voz encontrou casa.
Conheci essa pessoa há dez anos, quando ela ainda estudava para o cursinho de medicina. As circunstâncias nos afastaram, e só voltei a encontrá-la por acaso, aqui no Recanto, com conta verdadeira, nome verdadeiro.
Comentei um texto seu.
E, como resposta, ela apagou a conta.
E me bloqueou de todas as redes sociais — até daquelas que talvez eu nem tenho conta (just in case, né, ela deve ter pensado)
E você me pergunta: “Mas o que você fez para merecer isso tudo?”
Existo. Apenas isso. E isso foi o bastante.
Mesmo depois dessa "rejeição", encontrei aqui um perfil que respondia, anônimo, no RL, em forma literária, tudo aquilo que escrevi para ela e que tinha sido ignorado. Era um eco sugerido, mas só podia ser ela.
A pior parte? Descobrir que minhas vizinhas, de lado de casa — que, graças a Deus, já se mudaram — conversavam entre si sobre temas que só existiam nos meus textos e e-mails. Falavam alto o bastante para que eu, quieto no meu canto, inevitavelmente ouvisse.
Você deve achar coincidência demais, improvável demais, já que ela é de uma cidadezinha onde Judas deu seu primeiro beijo.
Eu também acharia, se não fosse real.
Minha frustração cresceu a tal ponto que questionei diretamente a vizinha. Como, no meio do Jaraguá, estavam debatendo Platão, Sócrates e os mesmos conceitos de amor que eu escrevia?
E, em vez de negar, ela confirmou:
“É que ela está estudando isso.”
Exatamente o tema do meu texto.
Se no Jaraguá já é improvável eu existir, imagine outro igual morando ao lado da minha casa.
Não quero fazer autopromoção, mas, leitora, faça um simples teste:
entre no Recanto, abra textos aleatórios da página principal, compare com os meus — conteúdo, escrita, identidade visual.
Mesmo aqui, fora das redes, dá para notar que sou raro.
Imagine na vida real.
Sem contar a estética, o humor, o ritmo, sensibilidade, corpo?
Mas isto não é campanha política nem anúncio de namoro no Tinder.
Como escrevi no texto anterior: se em dez anos ela não retribuiu meus afetos, não se aproximou, não transformou sua vida um milímetro por minha causa… é porque eu não sou especial para ela.
E ela, pelo que sei, está solteira.
E sim, eu percebo — sem monitorar diretamente — que alguém me lê com consistência há anos.
Só poderia ser alguém com vínculo afetivo comigo.
Nas conversas que ouvi das vizinhas, a mais nova perguntava por que ela tinha medo de mim.
E, lendo seu perfil anônimo, vi ecos de possível decepção, como se temesse que eu esquecesse, não fosse confiável, ou fiel.
Sei lá.
Atribuo isso à inveja das vizinhas, que envenenaram o ouvido dela como Iago fez com o de Otelo.
Uma delas, inclusive, gostava de mim desde menina — sem que eu jamais tivesse dirigido a palavra a ela.
Mas graças ao passado, o presente existe.
E o presente mostra que quanto mais perto do rosto, mais perto do coração.
Porque há outra pessoa — chamemos de Helena — para preservar sua identidade.
Com ela, adquiri mais química e intimidade em muito menos tempo.
E olha que Helena teria mais motivos para me rechaçar, já que, na literatura, ela é comprometida com Menelau.
Mas essa Helena não.
Ela retribui meu carinho como pode.
Mostra gratidão, generosidade.
Tudo aquilo que a antiga não conseguiu demonstrar.
A outra — a do passado — é uma princesa do próprio bairro, estudou medicina, é ryyyca para padrões brasileiros.
Tem uma face angelical.
Mas às vezes me pergunto se esse anjo não esconde uma superfície enganadora.
Porque, apesar da formação, não vejo nela a liturgia necessária ao ofício:
um certo distanciamento de classe, uma altivez de espírito que a educação deveria imprimir no trato com pacientes, funcionários, vidas mais humildes.
Não percebo isso nela.
E isso me inquieta.
Helena, mesmo sem contato direto, mesmo no silêncio, inspira.
Suas ações, sua forma de existir, são a personificação de algo bom — algo que me faz querer ser melhor.
Mas há um ponto de contraste: A double n (a inominável) tem profissão, tem vida, tem mundo próprio.
Não depende de mim.
Aliás, ninguém depende de mim.
Sou totalmente inútil.
E justamente por ser inútil… sou totalmente necessário.
A felicidade também é inútil, e nem por isso deixa de ser essencial.
O que me preocupa é: se o reinado de Menelau acabar, o que acontece com Helena?
O que a prende a Menelau é afeto ou conforto?
Na literatura, Helena troca Menelau por Páris — mas Páris também era rei.
Aqui estamos falando de vida real.
Eu, por exemplo, só sou rei em Ítaca ou em Pasargada — meu mundo interior, rico, vasto, onde não sou apenas amigo do rei: sou o próprio rei.
E enquanto mostro.
Gosto enquanto amo.
E assim está o estado atual do meu coração, amostando alguém que não pode retribuir - ou retribui da maneira que pode. Que é mais do que eu merecia ou podia esperar, porque ela é boa demais pra ser verdade.
Onde eu posso ser rei, no meu mundo interior, com certeza ela é a rainha.