DAVELEDAVE.RECANTODASLETRAS.COM.BREm A Insustentável Leveza do Ser, Milan Kundera assume o papel de narrador íntimo da história entre Tereza e Tomas e, em determinado momento, nos oferece uma reflexão que nunca mais abandona quem a lê.
A verdadeira intimidade não está apenas em compartilhar o corpo, a noite, o desejo. A verdadeira intimidade — a mais funda, a mais desarmada — é compartilhar o sono. Somente quem se sente realmente seguro, desejado e em paz adormece ao lado de alguém.
É aqui que se torna impossível não pensar nas diferenças entre o desejo masculino e o feminino.
O desejo do homem costuma ser mais primitivo e explícito. O da mulher, mais ligado ao sistema límbico: às emoções, aos afetos, ao imaginado — não ao explícito, mas ao sutil, ao sugerido, às palavras.
A noite, para o homem, costuma pressupor alguns minutos de prazer — talvez horas, se for um homem com bom preparo cardiovascular, como este humilde escriba que vos fala.
Para a mulher, porém, o corpo só desperta quando o afeto desperta primeiro. Isso leva tempo. Leva clima. Leva presença. Enquanto o homem já está dormindo — ou fugindo — a mulher ainda está tentando entender onde ficaram os preliminares que nunca aconteceram.
Existe um egoísmo masculino que confunde seu próprio desejo com o desejo da mulher. Enquanto o olhar masculino foi moldado por uma estética pornográfica — uma indústria que consolidou a sexualidade pelo prisma do homem — o olhar feminino é simbólico, erótico, emocional.
Para a mulher, erotismo é narrativa; para o homem, muitas vezes, é logística.
Isso se reflete até na noção de beleza.
Para muitos homens, falar em estética é quase exagero. Eles se vestem apenas para não andar nus, como se a beleza fosse um problema administrativo. O corpo que admiram é volumoso, hipertrofiado, desproporcional — um exagero que, ironicamente, costuma vir acompanhado de uma barriga igualmente exagerada.
Hipertrofiam músculos, atrofiam o cérebro — e, digamos, deixam a “cabeça de cima” sempre a serviço da de baixo.
A mulher, quando não sucumbe ao olhar estético imposto pela mídia e pelo desejo masculino, valoriza proporção, simetria, saúde, funcionalidade. Não é necessariamente consciência — é biologia. Ela intui que um homem disciplinado, com abdômen seco, rotina, dieta e autocontrole, muito provavelmente terá também inteligência emocional suficiente para não deixá-la desamparada.
Com todo respeito: o homem que cuida de si revela para ela que também saberá cuidar de quem ama. Porque a disciplina do corpo costuma ser irmã da disciplina afetiva.
O sexo é importante numa relação — não é perfumaria. Mas está longe de ser o essencial. Ele vem depois da química, depois da percepção de esforço, depois da sensação de valorização.
Não dá para falar de sexo sem falar de autoestima. O que excita o homem não é o que excita a mulher. O homem é mais visual; a mulher, mais sensitiva. Palavras, toque, cheiro, afeto, humor.
O homem que desperta a autoestima de uma mulher desperta também sua libido. Ele a faz sentir-se sexy, sensual, confiante. É assim que o desejo feminino se acende: pela dignidade afetiva.
Eu não acredito em sexo discutido como cláusula contratual — o que pode, o que não pode. Sexo verdadeiro é química, descoberta, exploração.
O orgasmo feminino é uma metáfora do pré-sal: oculto, profundo e riquíssimo. Só se extrai com técnica, paciência e respeito.
E há uma verdade dura, mas necessária.
Se alguém teve dez anos para mostrar gratidão, cuidado e o quanto você é especial — e não mostrou — talvez agora seja tarde demais. Talvez você nunca tenha sido tão importante assim para essa pessoa.
A boa mulher com quem eu gostaria de partilhar meu sono é aquela que faz o impossível parecer possível.
Como Jean Cocteau, que criou a primeira versão de A Bela e a Fera em 1946

— um filme tão mágico, feito com recursos tão antigos, que muitos disseram que ele realizou o impossível.
A mulher que partilha meu sono e meus sonhos é essa: a que me inspira a dizer, em silêncio ou em voz baixa:
“Sem saber que era impossível, eu vou lá e faço — por causa dela.”