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Há bênçãos que devem ser viver certas fases da vida que despertam na gente uma ternura que a gente nem planejou sentir — fases que parecem iluminadas por dentro.
A paternidade e a maternidade são duas dessas. Principalmente a gestação — essa conexão silenciosa entre mãe e bebê, quando ela começa a sentir os primeiros movimentos, como se o corpo conversasse em linguagem secreta com o que cresce ali. A natureza faz dessas obras-primas discretas, e muitos esquecem, mais tarde, que um dia foram carregados por nove longos meses, saindo literalmente de dentro de alguém.
Triste ironia: crescemos e esquecemos.
E é curioso pensar que a criança não é exatamente responsável pela própria existência.
Por isso os pais — os verdadeiros — são sempre aqueles que assumem o papel sem aviso prévio: a vida principal deles passa a não ser mais a deles, mas a daquele que colocaram no mundo. É um deslocamento de eixo, quase espiritual.
O Tiago tem suas dificuldades. Foi classificado com um autismo leve — nada que diminua quem ele é, mas algo que exige mais atenção, mais presença, mais paciência.
E ele tem isso.
Ele tem pais que estão lá, mesmo cansados, mesmo no fim do dia, mesmo quando o mundo não ajuda.
Eles leem historinhas para ele antes de dormir.
Contam contos simples, daqueles que fazem a imaginação aprender a andar. E, de fato, ele grava na memória e repete as histórias que aprende — com sonoplastia e tudo — a ponto de seus psicoeducadores acharem que ele já sabe ler.


Fazem atividades de coordenação, brincam com massinhas, cores, elementos sensoriais, deixam ele tentar, errar, desistir, voltar.
Ajudam na linguagem falando com ele devagar, nomeando as coisas, fazendo perguntas.
Criam pequenos rituais que fortalecem a autonomia dele: guardar brinquedos, escolher a roupa, pegar o prato.
E estimulam a persistência — porque o Tiago, às vezes, desiste rápido.
É por isso que gosto do que Carol Dweck diz sobre o desenvolvimento do mindset das crianças: sempre exaltar o esforço, o trabalho, em vez da inteligência ou da capacidade inata. Porque isso faz a criança cultivar uma mentalidade de evolução contínua — de não desistir, de compreender que inteligência e habilidade não são dádivas prontas, mas conquistas que nascem do empenho e do trabalho.
Tudo isso sem drama, sem glória, sem “heroísmo”.
Apenas amor — aquele tipo de amor que não anuncia, só faz.
Essas coisas parecem pequenas para o mundo, mas para uma criança são o alicerce do futuro.
E talvez por isso o relatório mexeu tanto comigo: porque é impossível ver amor sendo construído e não ser tocado por ele.
Eu, por enquanto, ajudo à distância. Mas no futuro, sei que vou ser uma influência melhor para ele.
É por ele também que eu cuido de mim, que faço o que faço — por quem amo e por quem ainda está aprendendo a existir.
RELATÓRIO ESCOLAR — TIAGO NASCIMENTO AMORIM
Professora: Luciana Farias dos Santos
O segundo semestre foi marcado por muitas descobertas e experiências significativas. As crianças participaram com alegria das propostas, expressando-se por meio das brincadeiras, da música, da arte e das interações.
Entre as vivências, destacaram-se atividades com água, areia, tinta e macarrão, que estimularam sensorialidade, coordenação e reconhecimento de cores. O dia das fantasias e as criações com materiais recicláveis ampliaram o protagonismo infantil.
As brincadeiras ao ar livre — no parque, nas árvores, nos espaços externos — ajudaram no desenvolvimento corporal, social e emocional, fortalecendo autonomia e cooperação.
Tiago vem e vai embora da escola acompanhado de seu pai ou de sua mãe. Chega tranquilo, procura um brinquedo e passeia pela sala, escolhendo onde deseja brincar. Em alguns dias, sai mais cedo para realizar terapia. Ultimamente tem demonstrado interesse em colocar objetos ou brinquedos sobre a cabeça, o que faz de forma divertida e exploratória.
Durante as brincadeiras ao ar livre, Tiago tem se aventurado mais nos brinquedos do parque, subindo as escadas do brinquedo e explorando a motoca, onde demonstra equilíbrio ao se posicionar sobre o degrau da área externa. Tem interagido melhor com os colegas, participando de brincadeiras como o pega-pega, especialmente quando é chamado pelos amigos, como o Bernardo. Apesar de se envolver por um tempo, ainda se dispersa com facilidade, preferindo seguir sua própria exploração.
No dia da apresentação musical, Tiago permaneceu com os colegas e apresentou a canção do seu jeitinho, participando do momento de interação em frente a muitas pessoas com tranquilidade e espontaneidade.
Em propostas dirigidas, Tiago demonstra curiosidade e, quando motivado, realiza as atividades com envolvimento. Na proposta de pareamento de objetos e cores, inicialmente colocou todas as bolinhas no centro do círculo e, depois, com atenção, pareou cada bolinha à tampinha da mesma cor, demonstrando compreensão da intenção da atividade. Ao tentar usar o pegador, preferiu explorar com os dedos, mostrando interesse na manipulação direta dos materiais.
Propus às crianças uma atividade de desenho com gravetos, justamente porque o Tiago não costuma demonstrar muito interesse por atividades de desenho. A ideia era oferecer uma forma diferente e mais atrativa de explorar este tipo de proposta. No início, deixei que ele explorasse o graveto e a tinta livremente, do seu jeito. Depois, chamei os amigos para participarem e, observando-os, Tiago se interessou mais, fez alguns traços e passou a explorar a tinta com os dedos, envolvendo-se de maneira mais sensorial e espontânea.
Em propostas de coordenação motora fina, como a de enfiar macarrão no barbante, Tiago apresenta dificuldade em manter a atenção e seguir comandos, necessitando de acompanhamento mais próximo para concluir a tarefa. Ele se envolve bem com as cores, mas tende a desistir facilmente quando encontra algum obstáculo.
Na comunicação, Tiago já fala algumas palavras, porém ainda está em processo de desenvolvimento da linguagem; faz gestos mais complexos, aponta, usa frases curtas e se afasta antes de estabelecer um diálogo prolongado.
Nas refeições, alimenta-se bem, mas tem preferido o arroz e o feijão, recusando algumas carnes e acompanhamentos. Entre as frutas, aceita abacaxi, manga, banana e, em menor quantidade, melão e mamão. Durante o descanso, adormece rapidamente e apresenta sono tranquilo.
De modo geral, Tiago tem mostrado avanços na socialização e na exploração do ambiente, revelando curiosidade e interesse pelas brincadeiras. Continua desenvolvendo sua autonomia, coordenação motora e linguagem, sempre com o apoio e incentivo das professoras e dos colegas.
Foi um semestre de muitas aprendizagens, em que cada criança avançou no seu próprio ritmo, construindo conhecimentos de forma lúdica, afetiva e significativa. O grupo se mostra cada vez mais unido, participativo e curioso diante das propostas, o que revela um crescimento contínuo e um prazer genuíno em aprender e conviver.
A escola agradece a parceria da família.
Eu ajudo como posso, mesmo de longe.
E penso que, no futuro, vou ser uma influência melhor para o Tiago — alguém que ele possa olhar e ver um exemplo de cuidado, disciplina, esforço, amor.
É por ele também que eu me cuido, que eu faço o que faço.
Por ele, por quem amo, e até por quem ainda pode entrar na minha vida — talvez alguém pequeno, alguém que ainda nem veio ao mundo, mas que já começa a existir quando a gente se permite imaginar.