DAVELEDAVE.RECANTODASLETRAS.COM.BRSabe quando falamos que a Jovem Pan tem uma linha política e o UOL tem outra? Há sempre alguém — silencioso, invisível — que define o tom, o espírito, a alma daquilo que é publicado.
E, no meu caso, neste exato momento, quem define minha própria linha editorial é um afeto. Não é metáfora: é direção artística. É curadoria emocional. É pauta viva.
Talvez, se não fosse esse afeto, eu estaria escrevendo sobre política, analisando a última série do Scorsese, fazendo piadas ou construindo artigos culturais austeros. Mas por causa desse afeto, eu escrevo sobre o afeto que ela me causa. E ainda bem — porque os assuntos que eu trataria seriam severos; já estes, ditados pelo coração, tornam o texto mais criativo, mais iluminado, mais meu.
Mas eu também sei que uma pessoa poderosa não pode se dar ao luxo de perder tempo só com sentimentos. E por isso tento incluir, ao lado da emoção, um pouco de conteúdo — um pouco de filosofia, um pouco de mundo.
Como o tempo, por exemplo. Santo Agostinho dizia que o tempo era algo que ele sabia o que era — mas que, se precisasse explicar, já não sabia mais. E é exatamente esse tipo de desorientação cheia de significado que esse afeto me causa.
Para Agostinho, não faz sentido separar passado, presente e futuro: todos coincidem na mente de Deus, que vive fora do tempo e, por isso, é eterno. Sempre que pensamos sobre o tempo, pensamos no presente.
Assim, o correto seria dizer: presente do pretérito (passado), presente do futuro e presente do presente.
E este afeto — este que ela me causa — me faz esquecer o passado, embora ele tenha me trazido até aqui. Me alegra pelo presente. E me oferece esperança no futuro.
Ao mesmo tempo, me faz pensar que a alegria que sinto por viver esse afeto talvez fizesse alguém muito triste por perdê-lo.
Penso no tempo em que não encontrei esse afeto, e me vejo como Ulisses: tentando voltar ao meu lugar natural — Penélope, Telêmaco, Ítaca. Dez anos perdido, até que finalmente retorna ao que sempre foi seu.
E, quando penso nesse afeto, eu me sinto exatamente assim: como se estivesse em casa, em um lugar do qual sempre fiz parte, que me pertence e onde posso respirar sem esforço.
Pensar nesse afeto me revela o significado da palavra fidelidade;
Não a união meramente conjugal, de corpo apenas — uma fusão contratual, morna, quase burocrática. É outra coisa. É a ligação da alma: de espíritos que se percebem antes mesmo de se olharem, que se reconhecem como quem reencontra um perfume antigo no ar. Vêm de longe — de um tempo que não sabemos nomear, talvez de além de mundos.
E quando se reencontram, sorriem um ao outro sem dificuldades, como se bastasse esse gesto para restaurar a ordem secreta do universo.
Porque só de imaginar a alegria e o prazer que ele me desperta, é impossível ter olhos para mais alguém. Viver isso significaria que nada me faltaria na vida — e me dá a certeza íntima de que tenho vocação para fidelidade.
Talvez o fato de eu nunca ter me relacionado seriamente com ninguém seja justamente porque, por natureza pacata, eu evitaria conflitos. O tempo passaria, e pela força do hábito, os anos se acumulariam. E ainda mais assim — com ela.
Esse afeto aumenta minha potência de agir, minha energia vital, minha vontade de viver. Meu corpo reage sem que eu perceba. Só de olhar para ela, me desperto.
Eu me sinto todo vertical. Ela me faz compreender, de maneira mais plena, o conceito de perfeição — talvez Deus a tenha desenhado valendo-se do mesmo molde com que criou a primeira mulher do mundo.
E o modo como os afetos se expressam — escolhas, postura, cores — é a tradução silenciosa do estado de espírito. É como a mudança da cor do cabelo da personagem de Kate Winslet, variando conforme seu mundo interno e sua relação com o personagem do Jim Carrey.
Se ela pintasse o cabelo de vermelho, seria como dizer: “eu estou viva; eu estou mulher, não menina; eu estou além das regras; eu estou inteira no meu mundo interno; eu estou me sentindo poderosa; eu estou me sentindo bonita; eu estou gostando de mim; eu estou me destacando sem anunciar isso.”
Eu não gosto desses conselheiros amorosos que tratam a intimidade como contrato, como se fosse preciso discutir antes o que pode e o que não pode. Intimidade verdadeira não é checklist: é descoberta orgânica.
Quando há sintonia, os desejos se revelam naturalmente — pelo corpo, pela pele, pelo calor, pelo sabor do outro. O gesto nasce por vontade própria, sem precisar pedir permissão, e o corpo do parceiro responde em aprovação, como só pode responder.
As minhas mãos passeando pelo corpo dela — como um marinheiro sem bússola, guiado apenas pelo desejo e pelo fascínio que o mar exerce — encontrariam seu destino sem esforço.
E os sons da intimidade exibiriam, de forma inequívoca, a aceitação, a sincronia, a entrega, o desejo.