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DAVE LE DAVE
SIM, ELE MESMO
Textos

 

EU NÃO GOSTO DA NIKE!

 


DAVELEDAVE.RECANTODASLETRAS.COM.BR

 


 

O INVISÍVEL QUE DEFINE

Sim — o slogan é bom, justo, definitivo: Just do it. Apenas faça. Mas a estética e os valores da marca não conversam comigo. Os tênis e as roupas são chamativos demais. E, claro, o fato de ser a fornecedora do meu rival (time) também alimenta minha natural ojeriza.

 

Conversa muito mais comigo a linha de design ligada à Bauhaus — aquela simplicidade que Steve Jobs transformou em frase e destino: a simplicidade é o último grau de sofisticação. A estética Bauhaus preconiza o minimalismo, o detalhe, a depuração até chegar ao essencial.

 

Jobs herdou do pai — um marceneiro impecável — a excelência que se revela até no que ninguém vê. O filho perguntou um dia por que usar uma madeira perfeita na parte interna de um móvel, já que ninguém jamais olharia ali. O pai respondeu, com uma sabedoria que mudaria o curso da história: não é porque ninguém vai ver que não deve ser belo.

 

Resumindo: o essencial é invisível aos olhos. Se você vê um corpo bonito, uma pessoa interessante ou elegante, é porque aquilo que você não vê nela é rico. É o que está por dentro que sustenta o exterior.

 


 

RAÍZES E ESTÉTICA EUROPEIA

Por isso, me identifico muito mais com as empresas alemãs — essa escola estética que moldou Adidas e Puma (marcas criadas por dois irmãos que se separaram e deram origem a dois estilos minimalistas, elegantes, funcionais).

 

Gosto dessa essência alemã que também aparece no design das Mercedes: minimalismo, excelência silenciosa, conforto máximo, experiência de usuário — exatamente aquilo que Jobs defendia.

 

A estética alemã. A ética alemã. A filosofia alemã.

 

No futebol, Felipe Luís — campeão da Libertadores pelo Flamengo — é brasileiro apenas no passaporte. Sua formação ética, profissional e intelectual foi toda europeia. Por isso se destaca. Por isso pensa acima da média.

 

No Brasil — como analisa Sérgio Buarque de Holanda — ao contrário da ética americana e europeia, que valoriza o trabalho, a civilidade e o pacto coletivo, nós somos cordiais: ligados ao coração, à emoção, ao afeto. E somos personalistas, devotos do indivíduo.

É justamente por isso que o brasileiro tem dificuldade de agir como cidadão para além de si mesmo. O indivíduo joga lixo na rua porque não consegue conceber que guardá-lo até chegar em casa é um gesto de respeito à cidade; que não fazer barulho é respeito ao próximo; que não estacionar na calçada é respeito à faixa de pedestre — tudo aquilo que define uma boa cidadania.

Afinal, por que ele faria isso, se não há ninguém olhando?

O brasileiro pensa como indivíduo, nunca como cidadão.

 

De certo modo, eu também. Sou brasileiro apenas no passaporte. Carrego uma influência europeia nítida: francesa na sensibilidade; alemã no pensamento.

 

Dos franceses, herdei o amor pela língua, pela arte, pela inquietação filosófica — esse espírito de não aceitar o status quo, de estar sempre em movimento, de nunca ser conformista.

 

Dos alemães, aprendi a ética do trabalho, o método, o rigor, o minimalismo, a civilidade. Aprendi com Nietzsche e Schopenhauer, mas também com Max Weber, que observava a sociedade como quem olha de uma montanha.

 

Weber, aliás, apesar de europeu no espírito, escreveu um dos livros mais importantes sobre a mentalidade americana: A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo. Analisou como o americano prospera ao ver no trabalho um sinal da benevolência de Deus — e essa disposição organizacional e empreendedora sempre esteve em mim. Sou autônomo por natureza, não quero depender do Estado para nada, embora reconheça sua necessidade na conservação da sociedade e no combate às desigualdades.

 


 

FÉ, GOSTO E DISTINÇÃO

E, claro, há a ética protestante. Sou de família religiosa, raízes batistas — e quase namorei a filha de um pastor. Lembro perfeitamente da primeira vez que a vi: fantasiada de bailarina (ou princesa, ou fada). De qualquer modo, foi amor à primeira vista. Há memórias que a alma não esquece.

 

Essa formação — independência intelectual somada à educação religiosa — deixa traços nítidos na minha personalidade. Muitos, ao me conhecerem, juram que sou evangélico. Talvez eu seja — um evangélico com bom gosto, digamos assim.

 

Depois de adulto, as igrejas que frequentei e os discursos que me atraem são da vertente batista, que considero mais espiritual, intelectual e sofisticada. Gosto do pensamento do pastor Ed René Kivitz, da Igreja da Água Branca — um homem culto, equilibrado, de fé inteligente.

 

Oposto a certas vertentes pentecostais que atacam moda, costumes e falam de pecado com uma sensualidade curiosamente paradoxal — quase como uma devoção que sublima desejos eróticos. Há perfis por aí que descrevem práticas proibidas com tanta ênfase que parece que, ao falar, estão vivendo-as. Porque, afinal, quando você pensa muito num assunto, já o está vivendo de algum modo.

 

No fim das contas, meu gosto continua o mesmo: Adidas, Puma, Vans (sempre o clássico de sempre), Reebok. Minimalismo. Essencial. Discreto. Belo.

 

Menos é mais. A simplicidade — sempre — é a maior forma de distinção.

 

 

 

 

 

 

 

ESCRITOR DAVE LE DAVE II (OFICIAL)
Enviado por ESCRITOR DAVE LE DAVE II (OFICIAL) em 02/12/2025
Alterado em 02/12/2025
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