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DAVE LE DAVE
SIM, ELE MESMO
Textos

 

Acordei meio mal está manhã — e então percebi: eu estava apaixonado.

 


DAVELEDAVE.RECANTODASLETRAS.COM.BR

 


 

Acordei já com sintomas intensificados que tinham passado a noite inteira comigo, silenciosos. Fiz minha rotina habitual: escova, pasta de dente, enxaguante bucal; gargarejo, cospe. Olho-me no espelho. Sinto-me preocupado. Reflito.

 

Depois do café da manhã, antes mesmo de ler as notícias e antes do segundo café da manhã, aquele sintoma no peito — que me acompanhava havia um mês e se agravara nas últimas três semanas — chegou ao ápice. Hoje, justamente hoje, ele se revelou em seu ponto máximo. Eu não atinava. Mas algo em mim estava doente.

 

Pensei: o que poderia ser? Sem febre, sem coriza, sem dor. Apenas palpitações, acompanhada de respiração ofegante e uma frequência cardíaca acelerada, mas somente quando havia uma ação muito específica: pensar em algo. Descartei dengue, covid, virose — mesmo sem teste. Reflito com mais intensidade e, num raio de lucidez quase teatral, como se eu fosse o Dr. House descobrindo uma enfermidade rara cujo sintoma sempre estivera gritando diante de mim, cheguei ao inequívoco diagnóstico:

 

Eu estava apaixonado.

 

Ternamente, completamente e tragicamente apaixonado. E o único remédio possível — a satisfação do amor — eu não poderia obter.

 


 

RECIDIVA

Eu já tinha vivido isso durante dez anos. Mas o tempo sem sintomas aparentes fez parecer que a doença estava incubada, adormecida, até que ela desaparece. E, então, essa nova…

 

Engana-se quem pensa que meu sintoma de amor vem acompanhado de obsessão. Nunca impediu que eu vivesse a minha vida, que amasse outras coisas, outras paixões. Mas todas vinham acompanhadas de um pensamento recorrente — o pensamento dela. Os bons momentos se misturavam à alegria imaginada de estar com essa pessoa.

 

E há provas disso: durante todos aqueles anos, mantive tamanha distância que nem sei o nome dos seus pais, se tem irmãos, onde mora, seu telefone — nada.

 

E, ao contrário, ela sabe tudo isso de mim. Talvez até mais. Talvez me conheça, pelos meus escritos, melhor do que eu mesmo. Mas aquela doença antiga foi superada e deu lugar a outra. O amor não é como catapora: não imuniza. Ele volta. Volta mais forte.

 


 

A IMAGINAÇÃO COMO CURATIVO

É curioso: ela convivia comigo indiretamente, mas eu nunca me interessei o suficiente para sondar seu nome. Não sei quem são seus pais, se tem irmãos, se tinha filhos — nada.

 

Então, preenchi essas lacunas com a minha imaginação. A literatura foi a base. E, conhecendo-a melhor, percebi que ela superava inclusive a literatura — mas com o cuidado de não ultrapassar limites nem perturbar sua vida real. Hoje tenho ainda mais cuidado. Porque, infelizmente, o amor em mim já tinha contagiado outro, e sinceramente creio que nenhum deles, como casal, padece mais daquela antiga doença compartilhada, se é que algum dia padeceram.

 


 

O CONTÁGIO

E foi tudo natural. Nos intervalos de descanso, a curiosidade me levou até ela. Descobri seu nome por acaso, pelo perfil de um lugar que frequentávamos. Acompanhei-a discretamente por um tempo, distante, como alguém que mira uma paisagem, miragem, de longe... — até que não aguentei e precisei interagir.

 

Inspirado pela sua beleza, ousei comentar sem segundas intenções — apenas para entregar o que ela me inspirou. Mas não foi recebido bem. Ironia: o fato de não ter sido bem recebido nos aproximou ainda mais. Criou-se uma comunicação silenciosa, cúmplice, quase um magnetismo de forças distantes conduzidas pelo destino

 

Cada vez que eu sondava, aproximava-me. E recuava. Até que hoje, finalmente, atingi o ápice da doença: perfeitamente doente e perfeitamente feliz — porque reconheço a paixão e sua causa; e profundamente triste — porque sei que esse sentimento não me concede felicidade.

 


 

A ACEITAÇÃO

Mas eu sei manter distância. Sei que constatar o amor em mim não obriga — não exige — que ela sinta o mesmo. Mesmo que quisesse, talvez não pudesse retribuir.

 

Também sei que idealizamos os outros e projetamos neles nossas virtudes. Mas não importa se alguma qualidade eu imaginei: não se acrescenta nada onde não há nada. E se vi beleza ali, na síntese do sentimento, é porque ela é digna de inspirar isso.

 

Ainda que não seja capaz de retribuir.

 


 

A TRANSFORMAÇÃO

Cabe a mim transformar essa impossibilidade em algo bom: sinceridade, criatividade, discreta presença — se possível — em momentos importantes da sua vida.

 

E se, pelo menos por um instante, ela pensar em mim com carinho… se carregar um pequeno pedaço de mim na vida dela…

 

Isso já é retribuição suficiente para o meu amor.

 

 

 

 

 

 

 

ESCRITOR DAVE LE DAVE II (OFICIAL)
Enviado por ESCRITOR DAVE LE DAVE II (OFICIAL) em 02/12/2025
Alterado em 02/12/2025
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