DAVELEDAVE.RECANTODASLETRAS.COM.BRQuando faço um cadastro e me perguntam qual é a minha religião, eu nunca sei o que responder.
Esperam que eu entregue, em uma única palavra, algo que atravessa toda a história humana, todas as minhas dúvidas, todos os meus afetos, todas as minhas noites insones?
Minha vontade real é olhar para a funcionária e dizer: “Moça, você tem alguns minutos? Porque essa resposta exige tempo.”
Há tantas religiões — e quem ousaria afirmar qual delas guarda a verdade absoluta?
Lembro daquela esquete do Porta dos Fundos, em que Clárice Falcão morre e descobre que o Deus verdadeiro era o dos polinésios. Ela reclama que jamais ouvira falar deles. E Deus responde: “Meu povo é de tribo… comunicação complicada.”
Os judeus creem em Deus, mas não reconhecem Jesus como Messias.
Os muçulmanos seguem Maomé, o profeta que trouxe a revelação do Alcorão.
Os católicos veneram santos como intercessores.
Os espíritas creem na continuidade da alma e na comunicação mediúnica.
As religiões afro-brasileiras reconhecem uma profundidade espiritual que atravessa séculos de resistência.
E, no entanto, a verdade é simples e ancestral: acreditar em Deus independe de religião.
Para Espinosa, Deus não era um ser distante, mas a própria Natureza — Deus sive Natura — a energia que estrutura o cosmos e pulsa em cada coisa.
Até a própria Bíblia, esse livro que muitos tomam como imutável, tem inúmeras versões, traduções e disputas. Como bem mostra Karen Armstrong, grande historiadora das religiões, os textos eram copiados à mão durante séculos. E todo escriba, ao copiar, podia alterar algo, por vontade, erro ou interpretação.
A canonização dos livros bíblicos foi um processo humano, político, conduzido por interesses teológicos, disputas de poder e pressões históricas.
Ainda assim, gosto de olhar a religião pela lente da história. Cristo existiu. O Evangelho, embora teológico, preserva traços biográficos desse homem extraordinário, cuja vida foi tão marcante que dividiu o próprio calendário em antes e depois de Si.
A passagem da adúltera é uma das mais belas. Antes de dizer “Quem não tiver pecado atire a primeira pedra”, Cristo desenhava na areia.
E eu me pergunto: o que passava pela cabeça dele? E o que será que Ele desenhava?
Um barco? Um coração? Um versículo?
Talvez algo simples, íntimo, como na música Giz, da Legião (que, “coincidentemente”, está hoje na capa do meu site)
A fé, no fundo, é acreditar no que não pode ser provado.
Se Deus fosse comprovável, mensurável, explicável, a própria fé perderia seu elemento essencial: a esperança no invisível.
Desde que Nabucodonosor destruiu o Templo e levou os judeus cativos à Babilônia, a espiritualidade deixou de depender do lugar físico.
Foi somente com a permissão de Ciro, rei da Pérsia, e mais tarde com Artaxerxes, que o Templo foi reconstruído.
E, ainda assim, a verdadeira oração já havia se deslocado para a alma.
A pergunta “qual é a sua religião?” parece pressupor que seres humanos cabem em formulários, em formas geométricas — quadrado no quadrado, círculo no círculo — como se eu pudesse ser reduzido a uma categoria estática.
Ora, eu sou muitos. Sou o que o mundo me atravessa. Sou o que o ambiente me provoca. Sou movimento.
Nem mesmo o “eu” existe como entidade única dentro do corpo. Não há, em nenhum exame de imagem, um homenzinho controlando minhas decisões.
Coloque um corpo sob efeito de uma substância estimulante, e verá comportamentos que a razão não sancionou.
O corpo pede, a ação obedece, e o discernimento some — como alguém alcoolizado, que age antes de pensar.
O “eu” é um estado do corpo. Uma fotografia. E chamamos de “personalidade” aquilo que permanece relativamente estável porque nossos ambientes não mudam tanto.
A sociedade presta atenção ao presente e esquece o passado.
Os outros esquecem meus erros; eu não posso me dar esse luxo.
Cada vez que passo por certos lugares, lembro deles — e reflito — porque esquecer totalmente seria a receita perfeita para repeti-los.
Por isso o ambiente importa tanto. As pessoas importam. A escolha de quem deixamos ficar por perto é quase uma escolha de destino.
Eu tinha grande descrença na psicologia até conhecer a psicologia comportamental — a terapia que entende que mudar hábitos, rotinas e comportamentos é mudar o cérebro pela força da neuroplasticidade.
Um bom pensamento exige um bom corpo. E nenhum intelecto sobrevive à própria desordem.
Há pensadores brilhantes com hábitos desastrosos — e não é possível chamá-los plenamente bons ou ruins.
Santo Agostinho, antes de ser santo, pedia: “Pai, faze-me casto… mas não agora.” E depois bebia vinho nas sapatilhas das bailarinas da noite. Está tudo escrito por ele mesmo nas suas Confissões.
Nietzsche escrevia como um relâmpago. Sua queda na loucura não veio de um cavalo açoitado apenas — aquele episódio foi o gatilho final de uma sífilis contraída na juventude.
É triste ver cristãos dizendo que sua loucura foi punição divina.
Ele nunca escreveu literalmente “Deus está morto”. O que existe é a dramatização filosófica dessa ideia em A Gaia Ciência, onde o “louco” procura Deus com uma lanterna ao meio-dia e conclui: fomos nós que O matamos, ao não vivermos mais segundo Sua vontade.
A frase “se Deus não existe, tudo é permitido” não aparece literalmente em Os Irmãos Karamázov. Ela é apenas intuída.
Diôgenes, que morava num barril, e inspiraria o Chaves. O cínico, — do grego kynikos, “como um cão” — caminhava com uma lanterna de dia procurando um “homem decente”.
Foucault, com toda sua inteligência, tinha comportamentos destrutivos; mas sua obra permanece ética e profunda.
Inteligência não é sabedoria.
Pensamento não é hábito.
E nenhum gênio escapa da própria biologia.
— Oi, senhora atendente. A senhora ainda está aí? Perdeu alguma parte da minha explicação?
Enfim: essa é a minha religião.
Se ficou alguma dúvida, posso tentar explicar de novo — mas, aviso, vai levar tempo.