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A sina dela me fascina. “Sina” rima com "fascina", mas o verso é ruim — como tantas outras coisas — mas nenhuma faz jus ao que ela é.
A maioria das pessoas é comum — o que não quer dizer ruim — apenas comum. Ela, não.
A raridade é uma invenção humana. Apenas uma palavra.
Nada é raro por si: algo se torna raro quando concordamos coletivamente que tem valor. O dinheiro vale porque todos acreditamos nele. Quando há abundância, ele vira poeira. Ouro, diamantes, pedras preciosas: não são valiosos pela própria natureza, mas porque decidimos que são belos e escassos.
Somos animais de oferta e procura. Ninguém nasce raro. Mas alguém se torna raro quando muitos desejam e poucos alcançam.
Hoje, a escassez de homens minimamente decentes é tão grande que o homem comum — provedor, estável, bom marido — virou um luxo. E as mulheres sabem. Têm medo de perder o pouco que há, e com razão. Quando há carência, qualquer “mínimo” vira diamante.
Uma amiga me contou que o marido — que ela mesma descrevia como sendo nada demais — a traiu com a melhor amiga. Ela me mostrou o vídeo no celular da traidora. Não entendi por que ela sentiu a necessidade de me mostrar, mas tudo bem. Ela disse: “Homem já tá difícil, e minha melhor amiga ainda tira o meu?”. E eu, silencioso, entendi: a escassez cria desespero.
Se me dizem que sou raro, só posso aceitar como elogio quando entendo que existem muitas me querendo. Caso contrário, é só retórica vazia. E, às vezes, o “raro”, como o ouro, assusta. A verdade é que sou comum. Gosto de coisas sofisticadas, mas sou simples. Meu meio é simples. O que me diferencia é que, por dentro, meu gosto é aristocrático — "dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho (meu pensamento interior), como coisa real por dentro.
Mas raro também é a mulher. E algumas desconhecem o fascínio que carregam — o brilho que emanam, a força que possuem. Acham que já alcançaram seu auge, sua melhor versão possível, quando, na verdade, nem começaram a vislumbrar o que podem ser. Permanecem em vidas que escolheram sem conhecer todas as outras — melhores — que poderiam existir.
A angústia nasce do ato de escolher. Escolher um caminho significa abandonar outro, e a impossibilidade de saber o que seria daquele outro destino é o que chamamos de angústia. Aristóteles dizia que viver bem era uma questão ética — mas ética, para ele, era viver de acordo com a função mais elevada dentro do cosmos.
Exemplo: o grego olhava para o mundo e via que certos objetos são perfeitos para sua finalidade: o olho é perfeito pra ver, a boca para falar, os olhos pra enxergar.
O gato é perfeito na sua função de gatear, que é ser folgado. Do cachorro em ser fofo, da barata de representar o demoníaco em forma de inseto, e da mulher que escrevo em ser linda e ter um lindo sorriso, de uma luz que vem de dentro. A perfeição das coisas refletia a perfeição do universo.
Hoje sabemos: o universo não tem ordem absoluta; é expansão e caos. Então nós é que precisamos definir o que é viver bem, onde é o nosso lugar, com quem, para quê.
Algumas mulheres raras permanecem onde nunca florescerão apenas porque ainda não foram apresentadas ao lugar que realmente é delas. Mas, quando encontram esse lugar — ou esse alguém — elas sabem. Intuitivamente. Reconhecem a diferença entre aquilo que as mantinha iguais e aquilo que as faz evoluir.
Evoluir é tocar a própria melhor versão. É habitar o próprio destino.
Sou grato pelas pessoas do passado que, por um instante, inspiraram algo bonito em mim. Mas não tenho memória curta. Lembro-me dela insinuando que eu era um “weirdo”, que vivia numa bolha. A ironia é que todos vivemos em bolhas — a diferença é que a dela a manteve igual durante dez anos. Não estagnou: involuiu. A conta bancária cresceu, o corpo talvez também cresceu para os lados, mas ela, como pessoa, não. E o tempo mostrou qual é minha real bolha: uma que eu quero que ela não faça mais parte, para não estourá-la.
Muito diferente da mulher que me fascina agora. Reconheço o valor e a potência dela. Só não consigo enxergar até onde ela pode chegar — nem com um telescópio — porque o horizonte dela é maior do que minha imaginação permite.
Tenho certeza de que ela é rara. E que tem asas. Foi feita para o céu, não para a terra. Tem a beleza suave e luminosa de Remédios, de Cem Anos de Solidão — aquela pureza encantada que de repente é conduzida ao seu destino celeste.
Mas, ao contrário de Remédios, ela não desaparece. Ela permanece — elegante, luminosa, delicadamente sensual. Uma mulher cuja graça não se explica: apenas acontece.
Uma mulher que fascina sem saber.