× Capa Textos Áudios E-books Fotos Perfil Livro de Visitas Contato Links
DAVE LE DAVE
SIM, ELE MESMO
Textos

 

AS MULHERES COM QUEM JÁ DORMI — MESMO SEM TOCAR

 


DAVELEDAVE.RECANTODASLETRAS.COM.BR
 


 

A HUMILDADE COMO ESPECTÁCULO

Como dizer isso sem soar pedante, orgulhoso ou desumilde? É curioso: vivemos numa sociedade que exige humildade como se fosse um espetáculo moral, uma liturgia pública de abaixamento — e repreende qualquer centelha de orgulho como se fosse pecado contra a ordem dos homens comuns.

 

Até Jô Soares, brilhante, amado, reconhecido como um dos grandes intelectos e humoristas do país, recebeu as “sandálias da humildade” do Pânico. Um ritual para repreender o orgulho. Um teatro em que, para caber no riso alheio, pediam que ele se diminuísse.

 

Naquele episódio, Jô, que tanto admiro, foi mal. Disse que as sandálias da humildade não podiam ser sandálias da humilhação — e, ao não entrar na brincadeira, acabou, involuntariamente, se colocando acima dos comediantes que o provocavam. Ora, bastaria citar Espinosa. Bastaria elevar o jogo.

 

Ele poderia ter dito que sentia orgulho de não ser humilde. Que o humor, para ser humor, não precisa humilhar. Que inteligência não se curva para agradar plateia. E que, segundo Espinosa — que obviamente nenhum deles conhece — humildade é a diminuição da potência quando percebemos um defeito em nós. É, portanto, algo negativo. Calçar aquelas sandálias seria, então, fonte de orgulho, não de vergonha.

 

E o orgulho, ao contrário do que supõem os moralistas, é aumento de potência: a consciência de algo precioso em nós — inteligência, beleza, corpo, habilidade, estilo. Jô poderia tê-los vencido pela palavra. Pela altivez mansa. Como Cristo ao oferecer a outra face — não em submissão, mas em soberania.

 

Mas, como disse Nietzsche, não estamos preparados para Espinosa. A sociedade dos homens comuns e modestos teme qualquer clarão de pensamento que ultrapasse o esperado.

 


 

JÔ, EU E O PESO DAS EXPECTATIVAS

Por isso eu recebia com incômodo — e, confesso, certo orgulho ferido — quando me comparavam a Jô. Há semelhanças, claro: futebol, humor, cinema, leviandades, leituras refinadas. Mas ele teve a melhor formação possível, sempre na elite, sempre cercado de cultura. E ainda assim se entregou ao sobrepeso, coisa que jamais permitiria a mim mesmo.

 

E, como Nietzsche também dizia, o que tem valor não precisa demonstrar. O valor de Jô está aí: escritor sólido, apresentador brilhante, humorista de talento, conhecedor de cinema para além do diletantismo. Um acervo inteiro de pensamento.

 

Eu, anônimo, tenho o meu daveledave.recantodasletras.com.br — como Bernardo Soares teve seu Livro do Desassossego.  

E esse paralelismo, por mais pretensioso que soe, não me abandona.

 


 

FLUIDEZ: NERD, ATLETA, FILÓSOFO, ESPIRITUOSO

O que desconcerta sobre mim é essa fluidez: não me encaixo em estereótipos. Sou pop e clássico, nerd e atlético, espirituoso e contemplativo. Memes e filosofia. Internet e psicologia. Literatura e esportes. Ora — se os afetos são muitos, minhas paixões também serão.

 

Penso em homens bonitos e interessantes — são poucos.  

Enzo Celulari, que acompanho, tem estilo, é bonito, ator talentoso, gosta de cinema, literatura e poesia. Mas, porra — ele herdou o capital cultural dos pais, Claudia Raia e Edson Celulari. Herdou beleza, capital simbólico e portas abertas. Ele joga a vida no easy. E mesmo assim não consta que tenha um site de literatura, que tenha dirigido um filme, que tenha erguido algo realmente seu além do que lhe foi dado.

 

Caio Castro é só galã. Rodrigo Hilbert é sensível, bonito, ainda cozinha — mas eu também cozinho, vale lembrar.  
 

 

E o que ele faz com a faca, eu faço com papel e caneta.  

Igual o que Napoleão fazia com a espada, eu faço com a pena.

 

Mas o que se vê por aí são intelectuais descuidados do corpo e atletas sem qualquer profundidade.  

E, claro, ajuda o fato de eu possuir — para falar humildemente — uma beleza invulgar. Um corpo que comunica atletismo, saúde e elegância antes mesmo que eu abra a boca. E, quando abro, ainda escrevo. Ainda penso. Ainda deslizo a pena como quem firma destino.

 


 

O OURO QUE OUTROS TOCAM

Meu público, no fim, é majoritariamente feminino. E quantas já não dormiram com outros homens pensando em mim? Muitas me admitiram isso — às vezes com humor, às vezes com culpa leve, às vezes com devoção secreta.

 

Mas então me pergunto:  

Se eu parecesse com Quasímodo, elas gostariam igual?  

Ou seria apenas o ouro que cintila em mim — corpo, rosto, voz, estilo?

 

Não gosto de dizer que escrevo por dom ou que minha aparência é inata. Não. Foi tudo cultivado com esforço, consistência, bom gosto. Talvez meu único dom seja este: discernir o belo do banal, o valioso do raso.

 

E ainda assim, tudo isso às vezes parece o toque de Midas.  

Ele ganhou o ouro como retribuição de Dionísio por ter ajudado o velho Sileno. Mas tudo que tocava virava ouro — inclusive comida e água. Seu dom era sua condenação.  

Até que lavou as mãos no Pactolo, e o rio até hoje carrega ouro.

 

 

Eu me pergunto: vale a pena cativar alguém que dormirá com outro pensando em mim?  

O ouro que o outro desfrutará é meu — ou é dela?  

E, afinal, quando alguém é “traído”, onde está o coração? No corpo? Ou no pensamento?

 


 

O TOQUE QUE IMPORTA

Por isso prefiro assim:  

Tocar a alma antes do espírito.  

O coração antes do corpo.  

Ser lembrado no silêncio antes de ser tocado no escuro.

 

Prefiro ser o calor que nasce do ventre para fora — e não a superfície que se dissipa na pele.  

Prefiro ser a onda que nunca se forma, porque permanece para sempre dentro dela.

 

 



 

 

 

 

 

ESCRITOR DAVE LE DAVE II (OFICIAL)
Enviado por ESCRITOR DAVE LE DAVE II (OFICIAL) em 30/11/2025
Alterado em 30/11/2025
Comentários