DAVELEDAVE.RECANTODASLETRAS.COM.BRComo a música do dia — aquela que coloco na capa do meu site — sempre reflete meu estado anímico, não seria diferente hoje. E hoje é um bad day.
Darwin Deez, excelente letrista, usa metáforas que parecem falar de qualquer pessoa, mas que, na verdade, só podem ser dirigidas a alguém muito específico — desejando a ela um dia ruim. Eu faço o oposto: pego meu dia ruim e tento transformá-lo no dia bom de alguém.
Darwin canta:
"Hope that the last page of your 800-page novel is missing.
And I hope that it rains if you leave the window down on your red Mustang."
Ele deseja que a pessoa leia 800 páginas em vão. Que esqueça a janela aberta do Mustang vermelho. Que derrube as chaves perto de um bueiro. E, por fim, que a garota de quem ele odeia mais ( ou melhor, que ama) saia com outro cara.
Ele transforma o rancor em arte. Eu transformo o sentimento ruim em outra coisa: em cuidado. Em dádiva. Em gesto.
A derrota — especialmente a derrota do time do coração — dói. E essa dor se parece, por metáfora, com a dor de um fim de relacionamento (embora eu nunca tenha vivido algo assim).
Acordei hoje numa ressaca que beira a depressão. Retomar o comportamento basal depois de uma frustração dessas demanda energia brutal do córtex pré-frontal — a área que toma decisões difíceis, que consome mais energia, que sustenta os comportamentos não impulsivos.
Hoje foi difícil acordar cedo, seguir minha dieta, fazer minha caminhada matinal. Mas a derrota ensina. Ela molda. Ela constrói.
Churchill dizia: “O sucesso é ir de derrota em derrota sem perder o entusiasmo.” Churchill, grande estadista — e Nobel de Literatura, meus amigos.
Considero pequeno torcer contra a felicidade alheia. Nietzsche já chamava isso de ressentimento: a inveja transformada em moralidade.
Foco nos meus próprios sucessos internos — isso é altivez.
E torcer contra o Corinthians só porque pode ser campeão, mesmo fazendo tudo errado no ano em que o Palmeiras fez (quase) tudo certo, estruturalmente, claro… seria reduzir o mundo à lógica pequena do ressentimento.
E mesmo que o Corinthians vença — eles continuarão sendo Corinthians. O título, se vier, será brilho momentâneo.
Ao Palmeiras cabe aprender. E voltar a disputar títulos — como sempre faz.
É preciso reconhecer a derrota. Dar parabéns ao Flamengo, aliás, é reconhecer um exemplo de vida:
Eles fizeram concessões, abriram mão do prazer imediato em nome de um futuro sólido. Estão colhendo agora.
Como eu: quando deixo de ceder a tentações momentâneas — distrações, mulheres, dinheiro — para focar no que realmente importa: qualidade de vida, bons relacionamentos, conteúdo, saúde, espírito.
Apostar no presente para colheita futura. É isso.
Não posso contar com sorte. Ontem, logo no início do jogo, o juiz poderia ter expulsado o jogador do Flamengo — e mudado tudo. Mas não mudou.
E o Palmeiras não foi eficaz o suficiente para superar as circunstâncias externas — as que não controla.
Maquiavel já dizia: Virtù deve superar a Fortuna. Não importam as circunstâncias — mas o que faço delas.
Por isso, para quem eu gosto, ou amo — ou melhor, amosto — eu desejo o melhor. Desejo o bem.
O bom dia dela supera o meu mal dia. A alegria dela me compensa.
Quando ela estava feliz, coincidiu com minha felicidade. Vê-la vivendo um sonho me fez viver um sonho através dela. E quando esse sonho acabou — agora eu sinto o impacto, essa queda súbita.
E tento devolver a ela, por mínimo que seja, um eco da memória do sonho, um resquício do que foi bom, usando minhas pequenas ações — simples, mas verdadeiras.
Que ela sempre tenha um bom dia. Diferente do dia ruim que Darwin Deez desejava.