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DAVE LE DAVE
SIM, ELE MESMO
Textos

 

A VIOLÊNCIA QUE SE DISFARÇA DE AMOR

 


DAVELEDAVE.RECANTODASLETRAS.COM.BR

 


 

DEUS COMO FORÇA, NÃO COMO ESCUDO

Deus, para mim, é uma presença forte demais para ser ignorada — não como figura distante, intangível, mas como sopro.

Uma inspiração silenciosa que coloca as palavras certas na boca certa, no instante exato.

Se você observa o desenvolvimento de um embrião, a dança improvável dos neurônios, os caminhos que se cruzam como se tivessem sido desenhados no escuro, parece impossível que tudo dê certo.

Mas dá.

Assim como o universo inteiro: algo nascido do quase-nada. Improvável, mas real.

 

O mesmo vale para encontros humanos.

 

O fato de eu ter surgido na vida de alguém — em certo momento, em certas circunstâncias — não é raro.

É apenas improvável. Mas o improvável também acontece. Alguns chamam de coincidência; prefiro o nome que Espinosa deu: necessidade secreta do próprio universo.

 


 

O PROBLEMA NÃO É DEUS — É A MÃO HUMANA

Quando humanizamos a religião, ela se deturpa.

Qual é a religião “certa”?

Muçulmanos morrem por sua fé.

Católicos se apoiam na maioria.

Evangélicos se multiplicam em dezenas de vertentes que discordam entre si.

 

A única certeza que habita em nós é anterior a qualquer doutrina:

a capacidade de discernir o bem e o mal.

Essa sabedoria íntima que não precisa de templos para existir.

 


 

DEUS, PÁTRIA E FAMÍLIA: O ESCUDO DOS FRACOS

Há homens que se escondem atrás desses signos para justificar barbaridades.

Usam a religião como armadura, mas não têm fé.

Proclamam-se chefes de família, mas não amam. Com um distanciamento que nem chamam mais a mulher que escolheram como mulher ou pelo nome: mas simplesmente como “esposa”.

 

Quantas mulheres foram chamadas de “varoa” — um substantivo inexistente, derivado de “varão” — como se não merecessem sequer nome próprio?

Essa linguagem, aparentemente inocente, é uma das mais antigas formas de apagamento.

 

Isso é violência.

 

Zizek diferencia dois tipos de violência:

A subjetiva — a visível, o tapa, o grito.

E a objetiva — estrutural, silenciosa, enraizada em séculos de patriarcado.

 

É a violência objetiva que permite a subjetiva florescer.

E é essa que mais me atinge — porque não deixa hematomas, mas deixa cicatrizes na alma.

O patriarcado não começa nas agressões visíveis. Começa nas invisíveis.

No controle financeiro, no silêncio imposto, na dependência afetiva, na “proteção” que vira cárcere.

 

É assim que um relacionamento tóxico se edifica: devagar, sem alarde, fingindo ser cuidado — enquanto molda a mulher para caber na vida do homem.

 

Essa violência se dá no cotidiano:

 

quando o homem controla a renda;

quando decide tudo;

quando impede que ela estude, cresça, sonhe;

quando a reduz ao papel de “mãe do filho de fulano”.

 

Ela perde tempo, autonomia, horizonte — perde até o nome. Adere ao sobrenome do Marido. Doravante, dona "Fulana", esposa de "Fulano de tal". Sem rosto, sem nome, sem forma.

 


 

O CASAMENTO COMO CÁRCERE

A verdadeira comunhão não é dividir gastos ou bens.

é dividir oportunidades. Sonhos.

É dar liberdade para que a mulher cresça material e espiritualmente, e, se quiser, possa ter autonomia se quiser me deixar..

Não existe amor onde não existe saída.

 

Nada é mais violento do que aprisionar uma mulher sob o argumento de que:

“Eu sou o homem. Você depende de mim.”

 

Isso não é cuidado — é domínio.

Não é amor — é medo de perder.

 


 

A RELIGIÃO QUE APAGA O PRÓPRIO CRISTO

Nietzsche não criticava Deus — criticava o que fizeram com Ele.

 

Nietzsche nunca criticou Cristo.

Criticou o que fizemos dele.

Cristo pregava amor, conciliação, ternura, perdão.

Mas muitos “cristãos” pregam ódio, armas, submissão.

 

Basta ver como a moral cristã é usada para legitimar agressões, calar mulheres,

tratar o corpo feminino como posse masculina.

Isso não é fé — é poder travestido de fé.

 


 

BOLSONARO, O ANTI-CRISTÃO

Sem tomar partido político, apenas no aspecto moral, observe:

um homem que se diz cristão enquanto usa palavrões, humilha a esposa, idolatra armas — cujo único propósito é ceifar vidas — encarna tudo o que Cristo não foi.

 


 

A FÉ QUE O FILME NÃO MOSTRA

Filmes como Deus Não Está Morto são caricaturas.

Retratam o intelectual como arrogante, violento, insensível, que se arrepende, de forma clichê, justo na morte. E por que ele não poderia se arrepender e viver? Talvez, porque assim, o filme não faria tanto sucesso.

 

Mas veja Clóvis de Barros Filho, Cortella, Karnal, Ed René Kivitz — homens doces, lúcidos, éticos.

A ficção deturpa, mas a realidade é outra.

 

O mais curioso?

O filme lucrou milhões mesmo com baixo orçamento, refletindo a produção, direção e fotografia precárias.

Dinheiro que, ironicamente, não salva ninguém. A não ser quem lucrou com ele.

 


 

A VERDADEIRA VIOLÊNCIA

A mais cruel não é o soco.

É a estrutura que permite o soco.

É a moral que diz que o homem manda e a mulher obedece.

É a religião mal interpretada usada como arma.

É o casamento que vira prisão, não escolha.

 

Isso me atravessa como golpe.

Como se a violência contra qualquer mulher se voltasse contra mim.

A  violência que se disfarça de amor é a mais cruel de todas.

Ela não quebra ossos — quebra destinos inteiros.

 

 

 

 

 

ESCRITOR DAVE LE DAVE II (OFICIAL)
Enviado por ESCRITOR DAVE LE DAVE II (OFICIAL) em 28/11/2025
Alterado em 28/11/2025
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