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Essa história é de uma morena (protagonista), um moreno (coadjuvante total) e uma loira (espetacular).
E não, não é o Tchan — embora o enredo tivesse potencial para algo ainda mais saboroso.
Sou um estrangeiro na minha própria terra, no meu próprio bairro. A infância foi aqui,
mas minha formação — humana, intelectual, espiritual — nasceu entre Perdizes,
Barra Funda, Paulista e Lapa (e Augusta, ok). Aqueles corredores austeros da PUC, com aparência de universidade pública
disfarçada, sempre me deram a sensação de transitar entre dois mundos: Karl Marx contra Adam Smith,
Lukács contra Tocqueville — e eu, no meio, tentando respirar entre uma ideia e outra.
Tive uma empresa aos 21 anos que, em apenas seis meses, com sede na paulista, faturou mais de um milhão.


Cheguei a ter uma share em Hong Kong para cobrar importadores e fabricantes em dólares.
Mas o destino, esse dramaturgo caprichoso, decidiu que eu deveria sair da empresa que criei —
como Jobs expulso da Apple.
O tempo e o dinheiro são tentações curiosas: por um lado, me feriram; por outro,
me ofereceram liberdade, horizontes, silêncio, mundos. Só sou quem sou por causa desse
intervalo aberto pelas perdas. E, sinceramente, se não fossem os tropeços, eu jamais estaria
morando onde nasci. Hoje meus antigos sócios desfilam de Mercedes e Lamborghini; eu, de trem. Mesmo assim, a reputação que criei, me permetiu empregar o meu irmão na empresa que ele está hoje, que é da minha área, já que recusei a proposta por estar em um outro momento, e ele tinha acabado de sair do emprego e tinha filho e mulher pra sustentar. Eu, minha própria vaidade. E o dinheiro da venda da empresa eu pude ajudá-lo a dar entrada na cas a própria onde mora, e fazer os reparos (caros) pra que ele pudesse alugá-la enquanto não se mudava. Então, na vida, tudo tem o propósito que o Destino fala.
Mas eis a ironia: se eles (meus ex-sócios) quisessem alcançar o que alcancei — não teriam mais tempo.
E eu, como no livro de Proust, Em busca do tempo perdido, sei que posso recuperar
o que perdi. O tempo, às vezes, devolve o que tira.
Nunca ressentirei meus erros. Eles me trouxeram até aqui. Tiraram algo, mas devolveram
outras coisas — sobretudo pessoas.
A morena, por exemplo. Para mim, ela é afeto. Vale mais do que qualquer bem material,
porque toca o espiritual. Há algo nela que ultrapassa o corpo.
A loira, por outro lado, é extraordinária de um jeito distinto.
Já escrevi sobre ela: mais bela, mais elegante, mais distinta que a morena — e isso é verdade.
Mas preciso confessar: talvez eu tenha mentido quando disse que trocávamos olhares.
Os olhares eram unilaterais — meus sobre ela. Nunca a vi me observar, ou talvez ela saiba
disfarçar com perfeição.
Temos afinidade estética, isso é inegável. Mas não sinto química, nem ligação.
Com a morena é diferente. Sempre a encontrei em fases distintas da vida, e a presença dela,
mesmo silenciosa, me afetava. Meu passado está todo escrito no Recanto — não escondo nada.
Talvez ela já tenha me visto em minhas piores fases, e mesmo assim algo entre nós
se movia com naturalidade.
No período da minha reconstrução, ela também estava lá. E, apesar do respeito mútuo,
quando nos cruzávamos, havia aquele sorriso espontâneo — um consentimento tímido de
algo não dito.
Agora, no estágio mais importante da vida dela, sinto que estive presente.
E estive porque quis. Porque escolhi estar.
É incrível como as músicas que ouvimos nos traem — expressam o que sentimos mesmo quando
não sabemos expressar. A que coloquei hoje na capa do meu site diz tudo, especialmente para ela.
Se fôssemos amigos — e poderíamos ser — seria pela minha franqueza.
Falo do meu passado sem máscaras. Minhas intenções são boas.
Com a loira, por exemplo, apesar da admiração estética, jamais passou pela minha cabeça
qualquer relação. Respeito, sobretudo pela amizade antiga com seu companheiro — porque,
embora eu não seja perigo, outros podem ser.
E aqui me valorizo: se a morena e a loira conversassem sobre seus anseios,
a morena sairia muito, mas muito na frente. Isso é inegável.
A loira é cobiçada, claro — mas o pretendente dela não seria igual ao moreno.
Acho que elas próprias concordariam.
Minha amizade é tão sincera que imagino facilmente um passeio a três — só amizade, nada mais.
Um programa simples: o Bourbon, onde vi filmes, comprei roupas, livros, café, memórias.
Ao lado do Allianz Parque, o lugar que mais frequento.
Lá me sinto mais em casa do que no meu próprio bairro, onde caminho ao lado de carros
estacionados na calçada, passo por lixo, por estrume de cavalo, e ainda ouço gritos para
“andar na calçada”.
Isso me entristece. Sinto que não pertenço aqui. E, ainda assim, continuo —
porque rotina também é resistência.
No Bourbon, nós três chamaríamos atenção. O conjunto das nossas aparências pararia o shopping.
Se elas estivessem com seus companheiros, talvez passassem despercebidas — digo com elegância,
não com crueldade. A gente pareceria saído direto de um episódio de Gossip Girl, talvez.
Chegaríamos cedo, tomaríamos café no Starbucks — eu, meu chocolate branco tall; elas,
alguma bebida gelada que mulheres adoram. Depois, teriam que me acompanhar na livraria
até o horário do filme. E, com todo respeito às damas, este cavalheiro escolheria o filme.
Imagino risadas, cumplicidade, pequenos silêncios carregados de algo doce.
E, talvez, nos pensamentos delas: “bem que eu gostaria que ele se aproximasse...”.
E nos meus também.
A tensão erótica do impossível tem sua graça. Não se realiza, mas acende.
Não se manifesta, mas vibra — um riso compartilhado que, dizem,
se parece perigosamente com um orgasmo.