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DAVE LE DAVE
SIM, ELE MESMO
Textos

 

A POESIA POR TRÁS DO HOMEM COMUM

 


DAVELEDAVE.RECANTODASLETRAS.COM.BR


 

O DECLÍNIO DO MÍNIMO

Vivemos uma era curiosa: há tantas mulheres que preferem mulheres não por rejeição ao masculino em si, mas porque intuiram algo sobre os homens contemporâneos. Muitos deles não conseguem oferecer sequer o básico — o mínimo de estilo, de presença, de linguagem.

 

Quando lhes falta palavra, tentam substituir afeto por presentes. Quando lhes falta coragem, escondem-se atrás de valores herdados — Deus, pátria e família — como se agradecessem por condições que não conquistaram, mas receberam dos pais, enquanto repetem a triste tarefa de depauperar a riqueza familiar e legar adiante apenas miséria e ressentimento.

 

Nesse sentido, Brás Cubas foi inteligente ao não ter filhos: poupou o mundo de mais herdeiros do homem comum, morno, indistinto, moldado pela manada.

 



AS PALAVRAS DURAS DA ALMA

A Bíblia é clara com quem vive morno:


“Porque não és nem frio nem quente, vomitar-te-ei da minha boca.”

 

E sejamos justos: há homens que nem ao menos comuns conseguem ser. Incapazes de prover a si mesmos, quanto mais uma família — ainda que tudo tenha sido herdado. Homens sem voz, sem gosto, sem trajetória: sombras andando por aí.

 

Numa sociedade em que alguns sequer se comunicam como seres humanos, qualquer homem minimamente educado, gentil e ordeiro já se torna — para muitas mulheres — uma raridade. É compreensível: se ela olha ao redor, percebe que esse “mínimo” parece mesmo extraordinário.

 

Até o dia em que descobre que há outros mundos possíveis — e que existe vida muito além do conforto


 

OS HOMENS OCOS

O sinal de nossos tempos está nos últimos homens de Nietzsche e nos homens ocos de T. S. Eliot: homens sem voz, sem chama, sem vontade. Encostados uns nos outros, empalhados, "Ai de Nós" - sussurrando fórmulas prontas de felicidade, seguindo gurus de internet, incapazes de criar qualquer coisa além de suas próprias repetições.

 

Como diz Nietzsche, o homem moderno não quer superar o homem — quer retroceder ao macaco.

 

O último homem zela pela paz, pelo conforto, pela boa convivência com os vizinhos — e pela saúde. Mas nem isso ele consegue cumprir.

 

A verdadeira saúde, para Nietzsche, só existe quando o próprio estilo de vida é o remédio. “Dieta”, em grego, significa exatamente isso: um modo de viver. Não é sobre comida; é sobre existência.

 


 

O HOMEM TOTAL

O problema do homem comum é que, apesar de todo seu charme pastoral, ele sempre encontra seu contrário — e isso o assombra.

 

Como disse Bataille, a maioria dos homens é composta de homens parciais: aqueles que entendem apenas de musculação e esquecem de construir repertório, "body builders" who forget the brain; ou aqueles que entendem apenas de livros e levam vida sedentária; ou banqueiros que acumulam cifras mas carecem de espírito; ou belos, ricos e cultos que carecem de humor, leveza e intensidade.

 

O homem total, pelo contrário, não se força: ele se constrói. Ele supera a si mesmo. É como diz Nietzsche novamente: “Torna-te quem és.”

 

É assim que tento existir: elegante e bem-humorado, atleta e espirituoso, investindo em capital cultural, simbólico, estético e erótico — sabendo que, numa sociedade que idolatra aparências, isso inevitavelmente se converte em capital financeiro. Mas nada disso importa se não houver felicidade, algo tão inútil quanto essencial

 


 

O HABITUS DO VAZIO

Alguns jogam sua vida numa felicidade oca, sem repertório, sem conteúdo, reproduzindo o que Bourdieu chamaria de habitus: um comportamento moldado pela massa amorfa onde foram criados.

 

Mesmo assim, a poesia do homem comum existe: ele oferece o nível de felicidade possível para muitas mulheres que, tão desapontadas com o mundo, já confundem rotina com alegria.

 

E eu? Estou fora disso? Não. Todos têm seu contrário. A diferença é que eu sei que meu oposto só pode oferecer prazer físico. E, se esse prazer virar afeto, torna-se tóxico — e afasta qualquer mulher lúcida.

 

Talvez seja por isso que tentam despertar ciúmes, enviando sinais através de outros homens. Mas se a noite foi tão prazerosa, por que me contar sobre a relação com eles?

 


 

O NECESSÁRIO E O BRUTO

Os homens comuns são necessários: sustentam relacionamentos pelo cotidiano, pelo hábito, rotina e — muitas vezes — pela falta de coragem das mulheres em mudar de vida. E pela violência: privar a mulher de convivência, de recursos, de autonomia não é amor — é só outra forma de agressão.

 

Já os homens brutos? Esses não oferecem nem o mínimo. Sua incapacidade de sentir inviabiliza qualquer relacionamento saudável.

 

No fim, o homem comum tem poesia; um discreto charme da banalidade; o bruto, não. E o raro — esse sim — tem estilo, voz, intensidade, humor, estética, alma e carne. Esse expande o tempo e deixa marcas, indeléveis.

 

 

 

 

 

ESCRITOR DAVE LE DAVE II (OFICIAL)
Enviado por ESCRITOR DAVE LE DAVE II (OFICIAL) em 27/11/2025
Alterado em 27/11/2025
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