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Vivemos uma era curiosa: há tantas mulheres que preferem mulheres não por rejeição ao masculino em si, mas porque intuiram algo sobre os homens contemporâneos. Muitos deles não conseguem oferecer sequer o básico — o mínimo de estilo, de presença, de linguagem.
Quando lhes falta palavra, tentam substituir afeto por presentes. Quando lhes falta coragem, escondem-se atrás de valores herdados — Deus, pátria e família — como se agradecessem por condições que não conquistaram, mas receberam dos pais, enquanto repetem a triste tarefa de depauperar a riqueza familiar e legar adiante apenas miséria e ressentimento.
Nesse sentido, Brás Cubas foi inteligente ao não ter filhos: poupou o mundo de mais herdeiros do homem comum, morno, indistinto, moldado pela manada.
A Bíblia é clara com quem vive morno:
“Porque não és nem frio nem quente, vomitar-te-ei da minha boca.”
E sejamos justos: há homens que nem ao menos comuns conseguem ser. Incapazes de prover a si mesmos, quanto mais uma família — ainda que tudo tenha sido herdado. Homens sem voz, sem gosto, sem trajetória: sombras andando por aí.
Numa sociedade em que alguns sequer se comunicam como seres humanos, qualquer homem minimamente educado, gentil e ordeiro já se torna — para muitas mulheres — uma raridade. É compreensível: se ela olha ao redor, percebe que esse “mínimo” parece mesmo extraordinário.
Até o dia em que descobre que há outros mundos possíveis — e que existe vida muito além do conforto
O sinal de nossos tempos está nos últimos homens de Nietzsche e nos homens ocos de T. S. Eliot: homens sem voz, sem chama, sem vontade. Encostados uns nos outros, empalhados, "Ai de Nós" - sussurrando fórmulas prontas de felicidade, seguindo gurus de internet, incapazes de criar qualquer coisa além de suas próprias repetições.
Como diz Nietzsche, o homem moderno não quer superar o homem — quer retroceder ao macaco.
O último homem zela pela paz, pelo conforto, pela boa convivência com os vizinhos — e pela saúde. Mas nem isso ele consegue cumprir.
A verdadeira saúde, para Nietzsche, só existe quando o próprio estilo de vida é o remédio. “Dieta”, em grego, significa exatamente isso: um modo de viver. Não é sobre comida; é sobre existência.
O problema do homem comum é que, apesar de todo seu charme pastoral, ele sempre encontra seu contrário — e isso o assombra.
Como disse Bataille, a maioria dos homens é composta de homens parciais: aqueles que entendem apenas de musculação e esquecem de construir repertório, "body builders" who forget the brain; ou aqueles que entendem apenas de livros e levam vida sedentária; ou banqueiros que acumulam cifras mas carecem de espírito; ou belos, ricos e cultos que carecem de humor, leveza e intensidade.
O homem total, pelo contrário, não se força: ele se constrói. Ele supera a si mesmo. É como diz Nietzsche novamente: “Torna-te quem és.”
É assim que tento existir: elegante e bem-humorado, atleta e espirituoso, investindo em capital cultural, simbólico, estético e erótico — sabendo que, numa sociedade que idolatra aparências, isso inevitavelmente se converte em capital financeiro. Mas nada disso importa se não houver felicidade, algo tão inútil quanto essencial
Alguns jogam sua vida numa felicidade oca, sem repertório, sem conteúdo, reproduzindo o que Bourdieu chamaria de habitus: um comportamento moldado pela massa amorfa onde foram criados.
Mesmo assim, a poesia do homem comum existe: ele oferece o nível de felicidade possível para muitas mulheres que, tão desapontadas com o mundo, já confundem rotina com alegria.
E eu? Estou fora disso? Não. Todos têm seu contrário. A diferença é que eu sei que meu oposto só pode oferecer prazer físico. E, se esse prazer virar afeto, torna-se tóxico — e afasta qualquer mulher lúcida.
Talvez seja por isso que tentam despertar ciúmes, enviando sinais através de outros homens. Mas se a noite foi tão prazerosa, por que me contar sobre a relação com eles?
Os homens comuns são necessários: sustentam relacionamentos pelo cotidiano, pelo hábito, rotina e — muitas vezes — pela falta de coragem das mulheres em mudar de vida. E pela violência: privar a mulher de convivência, de recursos, de autonomia não é amor — é só outra forma de agressão.
Já os homens brutos? Esses não oferecem nem o mínimo. Sua incapacidade de sentir inviabiliza qualquer relacionamento saudável.
No fim, o homem comum tem poesia; um discreto charme da banalidade; o bruto, não. E o raro — esse sim — tem estilo, voz, intensidade, humor, estética, alma e carne. Esse expande o tempo e deixa marcas, indeléveis.