
Thomas Mann oferece uma imagem belíssima sobre o tempo: quando estamos vivendo algo que nos encanta — uma viagem, um encontro único, um instante irrepetível — o tempo parece passar rápido no curto prazo. Mas, no longo prazo, esses mesmos momentos se tornam tão marcantes que, na memória, o tempo se expande.
Já na monotonia, o oposto acontece: dias lentos, arrastados, repetidos. Mas, quando olhamos para trás, anos inteiros parecem ter escorrido pelas mãos, como se nada tivesse acontecido. A repetição do mesmo produz a sensação de desperdício.
O que escrevo nasce dessa experiência de expansão do tempo. São gestos únicos, que deixam marcas na memória. A monotonia, ao contrário, gera vazio — uma erosão da alma.
Se eu analisasse do ponto de vista espiritual, diria que o que ofereço está ligado ao espírito: não são prazeres materiais, não são comodidades. A arte, a beleza e a cultura pertencem ao reino do que eleva. São experiências que ampliam a alma. Só pelo modo como nos tocam, elas já revelam sua verdade.
Ironia: o que costuma parecer mais sólido — conforto material, consumo, estabilidade — muitas vezes é o que aprisiona. A experiência comprada com dinheiro raramente expande o tempo; ela o contrai.
No fundo, cada pessoa sabe distinguir o que vem da alma e o que vem apenas do corpo. Às vezes, claro, algo toca a alma de tal forma que o desejo físico aparece como reflexo. Mas a origem é outra.
Escrevo sempre com as melhores intenções — with best regards, como diria o jargão corporativo. Mas intenções, às vezes, não são compreendidas nem pela pessoa, nem pela sociedade.
Há dias encontrei um “jamaica” do meu bairro — cristão, gentil, de bom coração. Ele acredita encontrar na Bíblia uma brecha para justificar o uso de cannabis. Um dia, no meio da minha caminhada, ele me parou apenas para dizer que queria ser meu amigo. A intenção era boa, mas me causou desconforto; ainda assim, fui educado.
Ele talvez tenha interpretado minha solidão como solidão interior. Talvez tenha pensado que “Deus falou ao coração dele” para que me oferecesse companhia. Cumprimentei, tratei bem — mas notei, ao longo do tempo, como o hábito da cannabis deteriora sua clareza, sua fala, sua estrutura.
Ele acreditou que teria algo a oferecer. Porém, paradoxalmente, era ele quem precisava de ajuda. Quando me ofereceu carona — no trajeto que fazia para comprar mais — neguei, porque minha caminhada é saúde; a dele, fuga. Depois, ainda me convidou para tomar um "suco" pra relaxar. Qualquer um veria ali um símbolo de tentação. Ele não era uma má pessoa, mas aquela interação me fez mal.
Às vezes me pergunto se minhas atitudes não tiram a paz dos outros, oferecendo o contrário do que pretendo. Penso muito nisso. E, embora eu tenha certeza de que poderia oferecer humor, leveza, autoestima, também percebo que preciso me afastar — não só por ela, mas por mim.
O que me inspira nela vem dessa experiência de tempo expandido. Mas a vida dela está ligada ao conforto material — e eu não quero me iludir. No máximo, eu poderia ser para ela o que fui para alguém há dez anos: uma leitura distante, uma admiração silenciosa. Nada mais.
Eu não sou famoso. Não sou escritor no sentido institucional. Não sou poeta profissional. Não peço retribuição afetiva. Mas também não posso alimentar ilusões. É preciso coragem — mesmo à custa da minha felicidade — para me afastar. E direcionar minha energia para pessoas reais, disponíveis.
É triste, porque ela me trazia inspiração, criatividade, me tornava uma pessoa melhor. Mas isso já se misturava com desejo físico, proximidade, expectativa — e isso eu sei que não posso ter.
É bem provável que este texto seja a última vez que ela me lê. E tentarei reunir forças para que também seja a última vez que escrevo para ela.
Vai doer por alguns dias. Mas eu não posso repetir o eterno-retorno da ilusão de uma história cujo final eu já conheço.
Você foi realmente especial, e é doloroso escrever isso, mas é melhor assim.
Com muito, mais muito amosto mesmo.
Eu queria ser ao menos amigo de quem me causa tanta ternura e bons sentimento. Mas também não é possível.
Sempre lembrarei de você com carinho, querida.
Que, talvez em outra vida, em outra circunstância, o destino nos reserve algo mais apropriado.
Mas nesta, cheguei tarde demais — e tenho o bom senso de não interferir na sua felicidade material.
Te amosto muito S2