DAVELEDAVE.RECANTODASLETRAS.COM.BR
De madrugada, quando acordamos no meio do sono — nesse instante suspenso em que a realidade parece líquida — todo mundo vira poeta.
Os objetos perdem a forma.
As certezas amolecem.
A alma fala mais alto que a razão.
E sempre me pergunto:
que mecanismo estranho é esse que vem nos arrancar da paz do dormir?
Será que, em algum lugar, alguém pensou tanto na gente que acabou nos chamando pelo pensamento?
Eu carrego uma única ideia.
Penso nela durante o dia — e sonho com ela à noite.
E, curiosamente, a minha felicidade não depende da realização desse desejo.
O simples ato de pensar nela já melhora meu humor, minha disciplina, meu destino inteiro.
É como se o pensamento criasse um pequeno sol particular dentro de mim.
Um sol permitido.
E, ao mesmo tempo, proibido.
Às vezes me pego pensando no que eu ganho quando faço alguém se sentir bem.
Não no sentido possessivo — mas na alegria secreta de saber que uma parte minha toca outra vida, e que isso pode ecoar para longe.
Talvez eu influencie até pessoas que ainda nem nasceram. Uma criança, que crescerá e terá como modelo masculino, quem sabe, por razões indiretas, que com isso não aceitará qualquer um na sua vida. E tenho certeza de que isso será bom.
Talvez eu sirva de referência silenciosa, de modelo possível.
É bonito pensar assim:
que algo meu continue vivendo no bem que despertei no outro.
Penso numa menina do meu bairro, aquela loirinha que eu achava tão bonita quando éramos crianças.
Hoje ela virou influenciadora local — uma rainha da periferia.
E sempre me pergunto:
se nossos caminhos tivessem se cruzado mais cedo… o que eu poderia ter mudado na vida dela?
Não falo de dinheiro.
Falo de horizonte.
De delicadeza.
De estética.
De afeto.
Tenho certeza de que ela teria florescido de outro jeito:
menos endurecida, mais princesa, menos sobrevivente.
Às vezes, o parceiro que escolhemos revela o valor que atribuímos a nós mesmos.
Não porque seja uma escolha “errada”, mas porque é a única possível dentro do contexto social em que vivemos.
E, no momento em que duas pessoas se encontram, aquela é a versão delas que existe.
A escolha faz sentido naquele instante.
O tempo, porém, cobra evolução.
Alguns evoluem — por dentro e por fora.
Outros apenas sobrevivem.
Eu sou diferente nesse ponto.
Minha única meta é evoluir sempre.
O David de hoje é melhor que o de ontem.
O de amanhã será melhor que o de hoje.
Eu nunca fui “o mais bonito”, “o mais inteligente”, “o mais forte” ou “o mais elegante”.
Mas eu nunca quis ser uma coisa só.
Eu gosto de ser o que falta no mundo.
Se eu não ganho o Oscar por uma categoria…
Eu ganho pelo conjunto da obra.
Como Kubrick.
Como Godard.
Como Woody Allen. O atleta que veste armani enquanto lê James Joyce e reflete sobre a vida.
Na época das escolhas, talvez eu não fosse a melhor opção.
Mas eu evoluí enquanto muitos ficaram iguais.
E a beleza que eu construí — a do corpo, da mente, da disciplina, do humor, da cultura — veio do trabalho diário.
Hoje, eu supero até quem nasceu com a dádiva da beleza estática.
E isso me motiva.
A minha melhor versão é sempre a próxima.
É verdade: nem sempre fui bem-sucedido.
Quem convive com vícios, imita vícios.
Quem convive com virtude, imita virtudes.
E quando penso nela, penso numa virtude que me melhora.
A presença dela — mesmo que distante — me protege.
E, no reflexo, eu devolvo o que ela desperta.
Muita gente já disse que eu pareço distante, que não faço questão de contato, que mantenho uma reserva estranha, apesar de um desejo ardente de conexão.
Mas isso é só respeito.
Eu nunca ultrapasso fronteiras que não me pertencem.
Eu não tomo o espaço de ninguém.
Eu não confundo meu desejo com o desejo do outro.
É claro que penso no prazer físico que uma mulher pode me dar e no prazer que eu poderia dar de volta.
Na pele, no toque, no calor.
Mas também sei que o que eu sinto não é automaticamente o que ela sente.
E respeito isso.
É assim que eu amosto.
com intensidade,
com lucidez,
e com distância suficiente para não prejudicar ninguém.
Permitidamente proibido.
Exatamente como deve ser.