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DAVE LE DAVE
SIM, ELE MESMO
Textos


SOBRE UNICÓRNIOS E OUTRAS RARIDADES

 


DAVELEDAVE.RECANTODASLETRAS.COM.BR

 


 

Não importa se o Palmeiras ganha, perde ou até se um dia jamais vencerá outra partida, ou mesmo que os rivais tirem de nossa fronte os louros da conquistas que estavam destinados para nós — continuarei indo ao estádio, continuarei vendo os jogos, continuarei existindo nesse amor perfeitamente imperfeito que é meu.

O êxito esportivo pertence ao mundo exterior; meus afetos, não. Eu não controlo o vento, só o rumo do meu barco.

 

E porque é amor — e não vaidade — eu não exijo retribuição.

Pedir que o amor devolva na mesma moeda é um jeito elegante de chamar o egoísmo pelo nome que ele tenta esconder.

 

Mesmo assim, a paixão melhora minha vida.

Mas eu não dependo dela para existir.

Eu existo porque tenho paixões — e essas paixões me fazem ser mais vivo, mais inteiro, mais eu.

 

Seria ridículo reduzir minha felicidade a um título, um sonho ou mesmo a uma pessoa.

A falta, a perda, a rejeição, a derrota — tudo isso empurra pra frente.

A dor não diminui: ela educa.

 


 

UNICÓRNIOS E A DOR QUE NOS TORNA RAROS

Pense em algo raro — um unicórnio.

No imaginário feminino, ele não é só fantasia: ele simboliza uma sensualidade invulgar, uma feminilidade quase sagrada, e uma beleza que não se repete, mas também desejo no que a mulher tem de mais íntimo. O Unicórnio é símbolo desse desejo.

 

Mas antes de ser raro, ele foi apenas um cavalo.

 

E o que o transforma?

Dor.

 

O chifre — símbolo máximo da sua raridade — nasce rompendo a pele, abrindo caminho pela fronte, rasgando o que existia para criar algo que nunca existiu antes.

 

É sempre assim:

a dor que atravessa é a mesma que consagra.

 

A beleza verdadeira é isso — a capacidade de transformar a ferida em signo, a cicatriz em joia, o trauma em ornamentação da alma.

 

Raro não é quem nunca sofreu.

Raro é quem soube o que fazer com a dor.

 


 

TURGUÊNIEV E A DELICADEZA DE TRANSFORMAR A DOR

Turguêniev entende esse movimento melhor do que ninguém. 
 

No conto “Relíquia Viva”, ele narra a história de Lukéria, uma jovem cuja vida foi marcada pela dor física e emocional: um acidente a deixa paralisada, abandonada à própria sorte. Mas em vez de se tornar amarga, Lukéria se torna — como o próprio Turguêniev diz — uma “relíquia viva”: uma criatura rara, cuja beleza interior foi forjada precisamente pelo sofrimento.

 

Ela acolhe visitantes com doçura, canta, conta histórias, ilumina o ambiente.

Não porque sua vida seja fácil, mas porque a dor lapidou nela uma sensibilidade que não existiria sem a fratura original.

 

O conto não glorifica o sofrimento — ele o transforma em significado.

Mostra como a vulnerabilidade, quando atravessada com delicadeza, cria uma espécie de luz própria.

 

Assim como o unicórnio, Lukéria não nasceu rara: foi a dor que a tornou luminosa.

 

Turguêniev faz algo que poucas almas conseguem:

ele revela como a dor, quando acolhida com doçura, se transforma em beleza — não a beleza vistosa, mas aquela que só o olhar sensível reconhece.

 

É o mesmo gesto do unicórnio:

não é o sofrimento que torna alguém especial,

é o que ela faz com ele.

 


 

A BELEZA DISCRETA DE QUEM CONTINUA

A raridade não está na perfeição, que é impossível, senão para Deus.

Está no modo como alguém permanece.

 

Na mulher que transforma dor em brilho.

Na que não pede retorno para amar.

Na que entende que a vida não devolve tudo — mas oferece, para quem sabe ver, o privilégio de sentir mais fundo.

 

O mundo esconde suas joias nas pessoas raras.

E todas elas, antes de brilharem, sangraram.

Como as estrelas no céu, que são os diamantes dos pobres. Os ricos, constrangidos diante de sua beleza, guardam seus tesouros em cofres.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

ESCRITOR DAVE LE DAVE II (OFICIAL)
Enviado por ESCRITOR DAVE LE DAVE II (OFICIAL) em 23/11/2025
Alterado em 23/11/2025
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