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No início era a palavra — o verbo. E se escrevo, é porque as palavras me chegam pelo caminho mais honesto possível: o coração. É dele que vem a inspiração, e por isso tudo o que digo aqui só pode ser verdade.
E essa verdade me sopra um pensamento simples, mas certeiro: eu conseguiria intuir seus gostos mesmo sem convivência. Não por adivinhação, não por presunção — mas porque certos espíritos conversam na mesma sintonia estética, emocional e sensível.
Tenho certeza de que você gostaria de filmes fora da rota hollywoodiana. Filmes que tocam o feminino com delicadeza, poesia e sutileza. Vejo você gostando de A Espuma dos Dias, do Michel Gondry; de O Fabuloso Destino de Amélie Poulain, com Audrey Tautou; e de Fale com Ela, do Almodóvar. Todos sensíveis, íntimos, quase sussurrados.
Talvez gostasse de Her, que eu já mencionei — um filme que entende a alma feminina melhor do que muitos humanos.
E também percebo outra coisa: aquilo que toca profundamente em mim não é necessariamente o que tocaria em você. Meu filme favorito é Era uma Vez na América. Subjetivo, nostálgico, ligado à minha história, ao meu nome, ao meu modo de sentir, separados só por uma cena trágica, que tira toda e qualquer identificação possível. Adoro também Taxi Driver, Poderoso Chefão… filmes, admito, sob a ótica masculina.
Mas existe um filme que — esse sim — aposto que dialogaria diretamente com o seu coração. Um filme francês, feminino, íntimo: Domicílio Conjugal, de François Truffaut.
É o segundo longa e o quarto filme da saga de Antoine Doinel, interpretado por Jean-Pierre Léaud — o rosto mais icônico da Nouvelle Vague. Descoberto ainda criança por Truffaut, ele se tornou símbolo do cinema de Godard, Varda, Jean Eustache.
Primeiro veio Os Incompreendidos (1959), aplaudido de pé em Cannes e que inaugurou o movimento. Depois o curta Antoine e Colette, sobre a adolescência e o primeiro amor. Em seguida, o belíssimo Beijos Proibidos, quando Antoine se apaixona por Christine — interpretada pela talentosa Claude Jade, com quem Léaud teve química real na tela e fora dela. No filme, ele é a primeira relação sexual dela, e os dois se casam. A cena final é linda: eles improvisam um abridor de latas como aliança simbólica da união
No início de Domicílio Conjugal, há uma das cenas mais doces e verdadeiras do cinema. Antoine pergunta a Christine se ela se lembra de como foi o primeiro beijo entre eles. Ela diz que foi ele quem tomou a iniciativa. Ele, rindo, rebate: diz que tentou beijá-la no rosto, mas ela achou que fosse um beijo na boca — e ficou com os lábios entreabertos, no ar, esperando.
Ele imita o gesto dela: a boca semiaberta, o olhar dividido entre surpresa e entrega. Christine ri — não como personagem, mas como Claude Jade. Não é atuação; é memória, verdade, intimidade.
Uma cena simples. Perfeita. Afetiva. Real.
Essa cena — inclusive — deixei no meu Instagram legendada. E se o tempo me permitir, adicionarei outras.
LINK PARA CENA: https://www.instagram.com/reel/DRXKI0gAE9d/?igsh=bHJqMGUwYnR1cGhs
Por isso digo: sem saber, eu sei o seu gosto. Não por convívio; por sensibilidade. Porque certos tipos de beleza só se revelam para quem tem a alma afinada com ela.
O seu gosto — aquilo que imagino dele — não é sobre filmes. É sobre delicadeza, profundidade, poesia. E esse tipo de sensibilidade tem assinatura: a sua. Agora o sabor do seu gosto, esse, sim, por ora eu só imagino…