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No mundo atual — ou no que restou dele — parece que é preciso acompanhar o retrocesso da humanidade como bom sobrevivente do século XXI.
Assim, tomei uma decisão drástica: matriculei-me num curso intensivo para aprender a falar na linguagem dos emoticons necessário ao bom convívio nas redes sociais.
Afinal, eu precisava me comunicar melhor com os nativos da fauna digital.
Cheguei à aula cheio de esperança, mas fui repreendido de imediato.
Elogiei a “proficiência didática” do professor — essa palavra maldita, “proficiência”, essa heresia acadêmica — e ele me olhou com aquele ar de quem percebe que terá trabalho dobrado.
Com pena. Ou melhor, com 🤦♂️.
Corrigiu-me com seriedade:
para elogiá-lo, o certo seria usar apenas um 🤩.
Tentei novamente, dizendo que amei sua didática 😍.
Ele então me repreendeu “à moda antiga”, como as professoras da minha mãe, batendo com uma régua metafórica nas minhas palavras.
Disse que a linguagem da internet não permite oração completa.
O correto seria apenas: “ameiiii ♥️”.
Se eu quisesse dar mais ênfase: 🥰.
Mas, como sou um péssimo aluno, tentei argumentar que talvez fosse melhor escrever “ameeéi”, colocando a tônica onde colocamos a intenção.
Ele não apenas me expulsou da aula, como também me deu dever de casa:
acessar o TikTok e queimar meus livros de gramática.
Tivemos uma aula sobre relacionamentos líquidos.
Aprendi que, ao elogiar garotas que consideramos boas progenitoras em potencial, devemos mandar apenas o 🔥.
Já para amigas, a etiqueta emocional manda dizer:
“maravilhosaaaa linda gata” — sempre antre adjetivos e sem vírgulas.
(gente, por favor, não contem ao meu professor que eu usei a palavra “adjetivo” neste texto; estou escrevendo clandestinamente, se ele descobrir vai me obrigar a estudar o Instagram da Virgínia como material didático.
Mas continuo tendo dificuldades.
Fui colocado em recuperação porque vi uma moça tão bonita que escrevi que ela parecia ter sido esculpida por Praxíteles, a própria Vênus de Milo — e ainda tive a ousadia de colocar vocativo, chamando-a de “escultura grega”.
Estou me esforçando para me inserir no grupo.
Felizmente, em apenas duas semanas reduzi 70% do meu vocabulário.
O efeito colateral é que, esses dias, ao ver meu sobrinho, esqueci como se dizia um simples “eu te amo, meu amor”.
Esqueci a palavra amor.
E, como o pensamento é linguagem, quando esquecemos as palavras, desaprendemos também sentir.
Mas é por uma boa causa.
Terei comentários curtidos, não serei mais bloqueado, e talvez até arrume uma companheira versada em emoticons só pra mim.
Inclusive entrei numa rede social específica — o único problema é que todos lá são surdos-mudos. Ou, então, analfabetos, esses são que estão no grau mais avançado da maçonaria do idioma do emoticon.
Mas é preciso acompanhar os tempos líquidos da atualidade, dissolver a alma na maré do digital, abandonar a poesia em troca da aceitação e do convívio pacífico.
Pelo menos, é o que o professor diz.
Minhas tarefas diárias são rigorosas:
Infelizmente, estou escrevendo este texto clandestinamente, através de um VPN nas Ilhas Faroé, mas é por um bom ti… tik...
🥰🤩🤭🔥😍
BEIJOS SEUS LINDOS (SEM VOCATIVO, PRA VER SE AJUDA A ME FORMAR MAIS RÁPIDO.