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DAVE LE DAVE
SIM, ELE MESMO
Textos

 

ESTOU APRENDENDO A FALAR EMOTICONES

 


DAVELEDAVE.RECANTODASLETRAS.COM.BR


 

No mundo atual — ou no que restou dele — parece que é preciso acompanhar o retrocesso da humanidade como bom sobrevivente do século XXI.

Assim, tomei uma decisão drástica: matriculei-me num curso intensivo para aprender a falar na linguagem dos emoticons necessário ao bom convívio nas redes sociais.

Afinal, eu precisava me comunicar melhor com os nativos da fauna digital.

 

Cheguei à aula cheio de esperança, mas fui repreendido de imediato.

Elogiei a “proficiência didática” do professor — essa palavra maldita, “proficiência”, essa heresia acadêmica — e ele me olhou com aquele ar de quem percebe que terá trabalho dobrado.

Com pena. Ou melhor, com 🤦‍♂️.

 

 

Corrigiu-me com seriedade:

para elogiá-lo, o certo seria usar apenas um 🤩.

Tentei novamente, dizendo que amei sua didática 😍.

Ele então me repreendeu “à moda antiga”, como as professoras da minha mãe, batendo com uma régua metafórica nas minhas palavras.

Disse que a linguagem da internet não permite oração completa.

O correto seria apenas: “ameiiii ♥️”.

Se eu quisesse dar mais ênfase: 🥰.

 

Mas, como sou um péssimo aluno, tentei argumentar que talvez fosse melhor escrever “ameeéi”, colocando a tônica onde colocamos a intenção.

Ele não apenas me expulsou da aula, como também me deu dever de casa:

acessar o TikTok e queimar meus livros de gramática.

 


 

O CURRÍCULO AFETIVO DA INTERNET

Tivemos uma aula sobre relacionamentos líquidos.

Aprendi que, ao elogiar garotas que consideramos boas progenitoras em potencial, devemos mandar apenas o 🔥.

Já para amigas, a etiqueta emocional manda dizer:

“maravilhosaaaa linda gata” — sempre antre adjetivos e sem vírgulas.

 

(gente, por favor, não contem ao meu professor que eu usei a palavra “adjetivo” neste texto; estou escrevendo clandestinamente, se ele descobrir vai me obrigar a estudar o Instagram da Virgínia como material didático.

 

Mas continuo tendo dificuldades.

Fui colocado em recuperação porque vi uma moça tão bonita que escrevi que ela parecia ter sido esculpida por Praxíteles, a própria Vênus de Milo — e ainda tive a ousadia de colocar vocativo, chamando-a de “escultura grega”.

 


 

O PREÇO DA ADEQUAÇÃO DIGITAL

Estou me esforçando para me inserir no grupo.

Felizmente, em apenas duas semanas reduzi 70% do meu vocabulário.

O efeito colateral é que, esses dias, ao ver meu sobrinho, esqueci como se dizia um simples “eu te amo, meu amor”.

Esqueci a palavra amor.

E, como o pensamento é linguagem, quando esquecemos as palavras, desaprendemos também sentir.

 

Mas é por uma boa causa.

Terei comentários curtidos, não serei mais bloqueado, e talvez até arrume uma companheira versada em emoticons só pra mim.

Inclusive entrei numa rede social específica — o único problema é que todos lá são surdos-mudos. Ou, então, analfabetos, esses são que estão no grau mais avançado da maçonaria do idioma do emoticon.

 

Mas é preciso acompanhar os tempos líquidos da atualidade, dissolver a alma na maré do digital, abandonar a poesia em troca da aceitação e do convívio pacífico.

Pelo menos, é o que o professor diz.

 


 

AS TAREFAS DO APRENDIZ DIGITA

Minhas tarefas diárias são rigorosas:

  • deixar ao menos dez 🔥 em meninas atraentes;
  • três horas diárias de TikTok;
  • e, para me formar mais rápido, acompanhar religiosamente os stories do Zé Felipe e da Virgínia.

 

Infelizmente, estou escrevendo este texto clandestinamente, através de um VPN nas Ilhas Faroé, mas é por um bom ti… tik...

 

🥰🤩🤭🔥😍

 

BEIJOS SEUS LINDOS (SEM VOCATIVO, PRA VER SE AJUDA A ME FORMAR MAIS RÁPIDO.


 

 

 

 

 

 

ESCRITOR DAVE LE DAVE II (OFICIAL)
Enviado por ESCRITOR DAVE LE DAVE II (OFICIAL) em 20/11/2025
Alterado em 20/11/2025
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