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Eu comprei O Enigma do Príncipe no dia do lançamento e lembro de ter devorado aquelas mais de 500 páginas em menos de 24 horas. O universo que J.K. Rowling criou possui esse tipo raro de magia: não uma magia estilística — afinal, sua linguagem é simples — mas a magia da narrativa, do mundo, da invenção. A fantasia que pega você pela mão e não solta mais.
Foram justamente os livros infantojuvenis que me deram o hábito moderno da literatura: Eragon, O Senhor dos Anéis, de Tolkien; A Bússola de Ouro, de Pullman — que, aliás, é o mais adulto deles; e O Guia do Mochileiro das Galáxias.
Ninguém começa lendo Dostoiévski do nada. É como entrar na academia pela primeira vez e tentar pegar 100 quilos no supino. Não dá. Você começa devagar, no ritmo, lento, e vai aprofundando, experimentando textos mais densos, mais complexos, com aquela expectativa crescente que — se eu puder ousar — parece o início das preliminares de um desejo: primeiro leve, curioso, exploratório… e depois, aos poucos, vai aquecendo, abrindo, intensificando, até chegar ao êxtase silencioso e secreto da leitura que consome a alma.
Existem leituras que se abrem como um toque que demora a chegar à pele:
primeiro um arrepio leve, depois o calor que sobe, a respiração que muda, até que a página vira sem que se perceba. Ler, nesses instantes, é um movimento de aproximação — é o corpo respondendo àquilo que a mente reconhece como possível de desejo. A leitura se acende como um gesto preliminar: lenta, atenta, atônita; e no seu auge, transforma a palavra em pele — não explícita, mas visceral, como um inquieto encontro de tempos e de instantes que se atravessam.
E assim fui eu: gibis, revistas, livros infantojuvenis, depois clássicos da literatura — Machado de Assis, Dostoiévski — e por fim os modernistas e pós-modernos, como Joyce e Faulkner, que tentaram reinventar o romance como quem tenta reinventar o corpo e o gesto. Ou talvez a roda.
SIM, a varinha do Harry me introduziu ao prazer da leitura, digamos assim. Ela me tocou fundo, no âmago, naquilo que tenho de mais íntimo e vulnerável.
Meu livro predileto da saga ainda é O Cálice de Fogo. A competição incrível; o primeiro beijo do Harry com a Cho Chang — que, sinceramente, nunca me desceu. Eu era do time que shippava Harry e Hermione e nunca aceitei a ideia de Hermione terminar com o insosso Ron Weasley. É como se a Lisa Simpson terminasse com o Milhouse — duro de engolir.
A solução da Gina Weasley, tímida, outsider, me pareceu muito melhor. Faz meu tipo: aquela beleza ginger pudica, reservada, mas cheia de fogo por dentro — como a Hinata do Naruto, quieta, mas intensa.
Depois, claro, eu me apaixonei por romances menos alegres: Madame Bovary e Anna Kariênina, que têm a coincidência de mulheres que escolheram mal seus parceiros e nunca viveram o amor idealizado que tanto sonharam — e que, talvez por isso, sempre me tocaram.
Mas o meu personagem preferido de Harry Potter não é nenhum dos óbvios — é Tiago Potter, ele ter o mesmo nome do meu sobrinho ajuda, mas não só por isso.
Em A Ordem da Fênix, quando a história dele é revelada, ali sim se vê alguém interessante: grifinório, bagunceiro, talentoso, exibido. Seu melhor amigo, Sirius Black, tinha tudo para ser Sonserina, vindo da tradição familiar, aliás parente da própria Bellatrix Lestrange.
Tiago era enigmático; Lílian, a CDF de origem trouxa. E aquilo que “não é permitido” — pessoas de universos diferentes se apaixonarem — é justamente o que move a história.
E quem vai dizer que existe razão nas coisas feitas pelo coração?
Como cantam Eduardo e Mônica, “quem irá dizer que não existe razão?”
Se até Rony e Hermione ficaram juntos — os Eduardo e Mônica da literatura infantojuvenil — por que Tiago e Lílian não ficariam?
Quando Emma Watson cresceu, cortou o cabelo e apareceu dançando com Jimmy Fallon, ficou lindíssima — elegante, leve, moderna. Fallon é um comediante, uma espécie de Danilo Gentili americano (só espero que não seja trumpista como Danilo é bolsonarista). Aliás, a rigidez do bolsonarismo tira a graça até da pessoa mais engraçada do mundo — não que eu ache o Danilo engraçado, claro.
Nunca gostei de humor que faz graça com os mais fracos, com os vulneráveis. Leo Lins, por exemplo: é fácil fazer piada com preto, pobre, mulher, minorias. Coragem de verdade é fazer piada com os poderosos — não humilhar os humilhados, mas os que humilham.
Mas o que Jimmy Fallon tem a ver com a história?
Acontece que Nicole Kidman, que interpreta a Sra. Coulter em A Bússola de Ouro, revelou numa entrevista que, certa vez, foi à casa dele numa festa porque estava interessada — queria ficar com ele. Mas Fallon, imbecilmente distraído, ficou ligado no jogo de basquete.
Ele não leu os sinais. Achou que aquela mulher — beleza clássica, quase platônica em sentido literal — jamais se interessaria por um comediante com cara de latino. E quando Nicole contou a história, ao vivo, ele ficou constrangido, arrependido, sem graça, mas educado.
Esse é o verdadeiro feminismo pra mim: não mulher fazendo mansplaining invertido, mas mulheres de atitude, de talento, de presença. Nicole sabe seduzir, sabe o que quer, sabe se mover no mundo com coragem e com charme — e sabe também que não foi rejeitada; apenas não foi percebida. Ela conhece o próprio valor.
Quem ficou mal foi ele — o comediante tímido, engraçado, mas perdido, que usa o humor como válvula de escape porque não entende as mulheres. E, convenhamos, elas são complexas mesmo.
Mas dizem que esse tipo de homem — o tímido, engraçado, mas inteligente — é sedutor.
Não sei.
E se ele souber escrever?
Ganha pontos ou perde?